
Cantos Ritos e Cultura:
A Prática Musical Incorporada na Educação Krahô
POR GUILHERME VAZ
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Os Krahô vivem na parte nordeste do Tocantins e fazem parte dos Timbira, que contam com etnias que possuem similaridades em suas culturas e falam a língua Jê. Originalmente os Krahô se autodenominavam “Mehim/Mẽhĩ” mas utilizam o nome Krahô como denominação também, carregam esse nome em seus documentos e o utilizam no contato com os não-indígenas, assim como os Guajajara. A palavra Mehim também teve uma troca de sentido nos últimos tempos e sofreu essa mudança junto com seu termo oposto “Cupen” que significava “não-Timbira” mas passou a significar “não-indígena”, enquanto “Mehim” passou a caracterizar todos os indígenas. Atualmente são 3571 indivíduos, de acordo com o SIASI (Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena), divididos entre aproximadamente 20 aldeias.
Em minhas buscas encontrei o artigo da professora Mônica Thereza Soares Pechincha, que dá aula na Universidade Federal de Goiás e que relata ter escrito essa pesquisa a partir das trocas que teve com professores Krahô, dando aula no curso de educação intercultural para formação de professores indígenas. Ela relata no artigo como os professores krahô estão buscando adaptar o ensino de suas crianças para melhor instigá-las com sua própria cultura, motivando-as a entender e apreciar mais sua história, seus rituais e sua tradição. Os Krahô reconhecem que não são mais os mesmos e contam como a memorização de certos rituais já não é mais possível. Desse modo procuram armazenar essas informações para que as crianças Krahô tenham acesso no futuro e para que nada do que resta de sua cultura se perca com as mortes graduais dos seus anciões.
Achei interessante como tratam a oralidade como uma “escola viva” em oposição à “escola morta”, sendo essa o nosso modelo acadêmico, mas reconhecendo a necessidade de se adaptar a esse modo diferente como forma de sustentar sua cultura, porque já não possuem mais os meios impostos pelos próprios indivíduos do povo para manterem a memória sobre certos aspectos da cultura. É algo que demanda muito deles, como dieta específica entre outras coisas que não são mais possíveis para eles.
Um dos rituais mencionados no texto é a Festa da Batata (Jàtjõpĩ), que costuma ocorrer entre os meses de abril e junho, período da colheita de batata doce, marcando assim a passagem da estação chuvosa pra estação seca. Há um “multidualismo” presente na cultura dos Krahô que se manifesta inclusive nesse ritual, onde temos o partido do Catãmjê, que representa a chuva, o gavião e o horizontal repassando o governo da aldeia para o partido do Wakmejê, que representa a seca, o periquito e o vertical, numa alternância de poder. Nesse ritual também existem os partidos de Harãcatejê e Kyjcatejê que representam o oeste e o poente e o leste e a nascente, respectivamente. O que os Krahô chamam de “partidos” são reconhecidos como “metades cerimoniais” que se complementam na formação desse dualismo que gera opostos complementares.
Os partidos Harãcatejê e Kyjcatejê são os que disputam a corrida com toras de batata, uma tradição presente em mais de um ritual krahô. A preparação para o ritual começa dias antes, com os hôxwa escolhendo a árvore que será utilizada, cortando e esculpindo as toras de madeira, que chamam de “jàtjõpĩ” (tora de batata) e nomeia o ritual. O trabalho feito pelos hôxwa é executado exclusivamente por homens, sendo os “hôxwa” caracterizados como palhaços cerimoniais, um papel exercido originalmente por “gente-abóbora” no mito que deu origem à festa.
O início se dá com o mestre do ritual cantando com a voz baixa e dançando na frente das toras. Esse canto é visto como perigoso, nem todos podem ouvi-lo. Nas palavras de Getúlio Kruakraj Krahô:
“A voz dos espíritos é leve e baixinha, a nossa é pesada. A tora da Batata é do mẽcarõ, não é do mẽhĩ. O pajé que inventou de mostrar, o povo pegou e faz até hoje. Canto da tora da Batata é dos espíritos, por isso que o próprio mestre não canta alto. Canta é baixinho. Não é todo mundo que canta essa cantiga que engana, ela te engana com qualquer coisa…”
Acontecem matrimônios ao longo da Festa da Batata, e enquanto se preparam as toras, as parentes maternas dos Krahôs recém-casados preparam “paparutos”, uma comida cerimonial que consiste em enrolar numa folha de bananeira um bolo de mandioca junto com carne para ser cozido embaixo da terra. Na tarde do dia do ritual é possível ver fumaças saindo de perto das casas, sinalizando que ali existe casamento.
A corrida das toras começa no meio da mata e termina no centro da aldeia, com alguns dos Krahôs mais velhos cantando para animar os corredores, enquanto estes entoam um canto que pede para que a tora não machuque quem corre e que pareça leve ao longo do trajeto. Quando a tora é jogada no centro da aldeia começa então a troca de paparutos pelas famílias dos recém-casados, tornando pública a união. Após esta troca, a cantoria continua ao redor do centro e percorre toda a aldeia com a cantoria da Batata, ligando todas as casas, onde os cerimonialistas percorrem jogando batatas naqueles que os desafiam. É proibido comer as batatas antes da festa, pois isso pode provocar bolhas de pus e sangue pelo corpo de quem não obedecer. Pode acontecer também, em algum momento, de as mulheres serem ouvidas de suas casas chorando de saudade dos mortos, normalmente dos que se apresentavam nos rituais. Estes por sua vez, choram de saudade também, pois para os Krahô a morte é apenas uma mudança de estágio, e seus parentes continuam presentes com eles mas de uma forma diferente. Por isso consideram alguns horários perigosos, pois os parentes, com saudade, podem tentar levá-los para junto deles.
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festa cultural do povo krahô
Ritual de preparação do paparuto

Povo Indígena Krahô - Ritual de preparação do paparuto, comida tradicional indígena (1).
REFERÊNCIAS
SOARES PECHINCHA, M. T. PERFORMANCE E EDUCAÇÃO: UMA REFLEXÃO DE PROFESSORES KRAHÔ SOBRE A INCORPORAÇÃO DE RITOS E CANTOS NA PRÁTICA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA. Revista Inter-Ação, Goiânia, v. 41, n. 2, p. 373–398, 2016. DOI: 10.5216/ia.v41i2.41003. Disponível em: https://revistas.ufg.br/interacao/article/view/41003. Acesso em: 5 jul. 2024.
MORIM DE LIMA, A. G. A CULTURA DA BATATA-DOCE: CULTIVO, PARENTESCO E RITUAL ENTRE OS KRAHÔ. Revista Mana 23(2). a cultura da batata-doce: cultivo, parentesco e ritual entre os krahô Acesso em: 5 jul 2024.


