Musicalidade Puri, um ato de ressurgência
POR DAVI TEIXEIRA DA COSTA
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A história de um povo pode ser contada de diversas formas, em alguns casos exaltando sua cultura e arte, e louvando seus feitos ou em outros, subvalorizando sua existência e até mesmo buscando o apagamento de sua memória, cultura e identidade. Não é novidade nenhuma termos o conhecimento de que ao longo da história do Brasil, por conta do processo colonizador, vários povos originários foram caçados, explorados, expulsos de suas terras e exterminados, processo esse que ainda vemos nos dias atuais. Frequentemente ocupando os noticiários, a luta de povos originários de diversas etnias busca, entre tantos fatores, preservar sua existência, seu habitat e manter viva sua cultura.
Entre tantos povos que poderíamos falar, escolhi trazer um pouco sobre a cultura dos Puri, um povo originalmente habitante do que se entende hoje em dia como litoral do sudeste brasileiro, que por conta da chegada dos portugueses foram forçados a migrar para várias regiões serranas. Entre elas, a da Serra do Brigadeiro, para onde fugiram da escravização e massacres acometidos ao seu povo, promovidos pelos invasores europeus.
Os Puri são pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê, e de acordo com o último censo realizado pelo IBGE em 2010, foram registrados 675 Puris, espalhados entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e São Paulo. Na cultura Puri, a musicalidade se manifestava de diversas formas, desde ritos religiosos e fúnebres à alerta para confrontos com outros povos, entoavam cantos e utilizavam variados tipos de instrumentos musicais produzidos usando matérias-primas extraídas da natureza.
Segundo o Txemím Puri - Grupo de Pesquisa e revitalização da língua Puri, resgate e preservação da cultura Puri -, “O maracá (grinkrína), a flauta (terára), o tambor (borará) e um tipo de viola feita de taquara compõem o universo musical. O berrante (txapá) feito de taquara e rabo de tatu, é um instrumento usado em momentos de guerra, cuja finalidade é alertar a aldeia e convocar confrontos”.
Ao falar de musicalidade dos povos originários, ainda mais especificamente do povo Puri, que busca desconstruir o apagamento histórico de sua cultura, é importantíssimo não cairmos na armadilha de estereotipar a musicalidade dos povos originários, como se apenas manifestações de povos do passado fossem de fato a única forma de musicalidade própria de povos originários.
Em uma matéria do site “Nossa Causa” (site voltado para a difusão da etnomúsica dos povos originários), a jornalista Camila Feiler (2015) diz que: “A cultura indígena tem pouca voz e representatividade nas mídias tradicionais, apesar de ser berço de tudo o que somos hoje. O que nos tornou tão distantes? O que podemos fazer? É importante lembrar que a tradição musical indígena não é um objeto de antiquário, é algo vivo e sempre em mutação, sendo constantemente praticada e renovada, incorporando até mesmo material não-índio, ainda que mantenha seus valores e formas essenciais preservados, e é uma vitrine de suas visões de mundo, cristalizadas em formas sonoras.”
Nesse movimento de ressurgência da cultura e musicalidade do povo Puri, o artista, escritor, etnomúsico, contador de história e autodeclarado como “caçador de histórias” Dauá Puri, realiza apresentações musicais e palestras trazendo a história, cultura, música e contos inspirados da cultura Puri, utilizando instrumentos musicais como flautas e viola de taquara confeccionadas por ele mesmo. Dauá Puri é formado no curso de educação do campo na Universidade Federal de Viçosa, publicou diversas obras literárias como Alkeh Poteh, no ano de 2015, além de diversas músicas, como “ho Tiuhli opeh” e “Inhan Churi” (ambas em língua puri), entre outras. Recentemente, lançou o álbum “Uhtl’ana", de etnomúsica, também em língua Puri - presente inclusive em plataformas como Spotify - buscando não apenas difundir sua manifestação artística e cultural através de sua etnomúsica, mas também quebrar com o estereótipo de "índio", construído pelo colonizador, que difunde a imagem de uma pessoa nua com um arco e flechas, despido não apenas de roupas, mas sobretudo de “civilidade”.
Minha escolha em falar sobre o povo Puri, e mais especificamente sobre o trabalho do Dauá Puri, se deu muito por conta da proximidade que tenho com ele. Além de um amigo pessoal, também é alguém que, para mim, é uma grande referência intelectual, a qual pude por várias vezes acompanhar em suas apresentações, em especial na Escola Municipal Presidente Costa e Silva, localizada no bairro Capivari, em Duque de Caxias, RJ. Foi nessa escola onde estudei no ensino fundamental, e assim foi uma grande satisfação presenciar a apresentação do Dauá Puri para uma turma de nono ano, na qual ele apresentou a história, cultura, luta, resistência e ressurgência do seu povo através da sua musicalidade.
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Oera - Dauá Puri
REFERÊNCIAS
DAUÁ Puri. Alkeh Poteh/Poeira de Luz. Ilustrações: Aline Rochedo -Puri-. – Rio de Janeiro : Pachamama, 2016.As informações sobre o livro estão na página da Editora Pachamama: http://www.pachamamaeditora.com/produto/alkeh-poteh-poeira-de-luz-livro-bilingue-puri-macro-je-portugues/
Gamito, J.A.S.2016,Artigo: Puri e reconstrução linguística.A ÁRDUA TAREFA DE RECONSTRUIR A LÍNGUA PURI
https://avozdaserra.com.br/colunas/historia-e-memoria/os-puris-povo-indigena-de-nova-friburgo
https://nossacausa.com/cultura-5-musicas-indigenas-que-voce-precisa-ouvir/
https://povopuri.wixsite.com/memoriapuri/centro-de-memoria-do-povo-puri
12154 - Cultura Puri e arteeducação – potenciais artísticos/subjetivos na construção e valorização de experiências contra-hegemônicas
Vocabulário da língua Puri de bolso, 2014 uma cor - revisado dia 06.02.2015









