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Fulni-ô: O resistir da língua por meio da música

POR BEATRIZ SCHUCHMANN VELOSO

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Fulni-ô: O resistir da língua por meio da música - por Beatriz Schuchmann Veloso

A história de hoje é sobre os Fulni-ô — “O povo da beira do rio”. Eles são um dos povos indígenas que se encontram no Sertão e Agreste de Pernambuco, mais especificamente no Vale do Rio Ipanema, no município de Águas Belas. Sua população foi contada com 4689 pessoas no último Sesai de 2014. Seu território abrange 11.506 hectares e é composto por três centros populacionais: a aldeia Sede, a Xixiakhlá e a Ouricuri, para onde o povo se desloca durante os meses de setembro e outubro, e onde acontece um dos seus rituais mais sagrados, de mesmo nome. Contudo, é de comum conhecimento que seu território é maior do que foi demarcado, o que causa muitos conflitos sociais perdurantes com o município de Águas Belas desde a formação da aldeia, visto que o caso Fulni-ô foi emblemático e serviu como parâmetro para as regularizações dos territórios indígenas no Nordeste.


A língua dos Fulni-ô é o Yáthê (Ia-tê), do tronco Jê, que em português significa “Nossa língua, nossa boca, nossa fala”. Seu idioma é extremamente importante para eles, pois além do seu falar ter uma veia política, também é importante socialmente, pois ser um “falante nato” é visto na comunidade como uma motivação pessoal e motivo de grande orgulho. Inclusive, os Fulni-ô são o único povo indígena do nordeste que conseguiu manter sua língua materna viva após a invasão portuguesa. A constituição do nativo Fulni-ô abrange três pontos fundamentais: a terra, o Yáthê e a participação no Ouricuri, que está intrínseca e sacramentalmente ligada com o Yáthê, pois o ritual é feito na língua indígena.


Enfim chegamos à Unakesa, ou Cafurna em português, que são as histórias cantadas dos Fulni-ô que oferecem informações e dão conselhos, expressam a sacralidade da língua e a proteção da identidade étnica; elas comunicam seus mitos, acontecimentos e modos de ser. Sobre a relação entre a Cafurna e o Yáthê, o antropólogo Miguel Colaço Bittencourt diz:

"A expressão musical das cafurnas indígenas cantadas em Yáthê tem uma relação de prestígio e de auto-afirmação no cenário de mobilização étnica, havendo até mesmo entre os Fulni-ô uma visão de hierarquização frente aos outros indígenas no Nordeste, que não conseguiram manter o seu idioma. Pois, no regime de alteridade a língua representa um alto grau de distintividade entre
os grupos sociais."

Por muito tempo, os Fulni-ô foram confundidos por pesquisadores com os Kariri por ambos habitarem a mesma região no Nordeste e pelos Fulni-ô estarem de certa forma isolados de outros povos, afinal eles são únicos no Nordeste que falam Yathé. Porém, justamente por sua língua ser única e tão diferente das outras, foi determinado que eles não possuem parentesco algum. Mas alguns anciãos Fulni-ô acreditam que a Cafurna veio dos Kariri-Xocó, e até hoje a comunicação intra-étnica entre os dois povos acontece por conta de seus costumes parecidos e a prática do Ouricuri.


Além de um gênero musical, a Unakesa também pode ser a dança, a música, os modos de cantar, as técnicas e estilos, o grupo musical, a tradição e a estética. O Sr. Abdon dos Santos, um dos anciãos Fulni-ô criou o grupo musical “Unakesa” após ver a necessidade dos mais jovens de aprenderem a língua e entrarem em contato com a cultura. E que maneira melhor de aprender um idioma do que pela música, principalmente quando a música é produzida pela sua própria comunidade com o intuito de ajudar os mais novos?


Além disso, como foi dito antes, a Unakesa também pode ser o modo de cantar, pois os Fulni-ô têm as próprias categorias e técnicas da pedagogia musical e colocação da voz para cantar. Quando eles cantam juntos, harmonizando, a voz principal se chama “meio”, “meio alto” é um pouco acima do meio, e “muriçoca” ou “retinta” é a voz mais aguda que tem. A voz logo abaixo do meio chama-se “bordão”.

 

E tudo volta para o Yáthê, a língua que é tão importante para os Fulni-ô. Antes, as crianças aprendiam em casa, porém os mais velhos observaram que não era o suficiente para manter o contato com a língua, por isso elas passaram a aprender nas escolas bilíngues da aldeia. Sobre a dificuldade de manter a língua viva, o Sr. Abdon disse: “o português e o dinheiro acabaram com nós, trouxeram ao nosso povo a inveja, a ganância e a arrogância”.


A Unakesa existe para preservar o Yáthê, e os Fulni-ô lutam por essa causa pois é o que há de mais importante para eles. Por isso os eventos onde eles cantam são abertos à comunidade externa, pois isso oferece o potencial de eles estabelecerem relações e alianças com pessoas de diferentes origens. Além disso, eles têm um álbum lançado em 2019, com algumas de suas músicas, chamado “Cafurnas Fulni-ô”, disponível para quem quiser ouvir digitalmente e de graça. Além disso, há um canal no Youtube chamado “Coletivo Fulni-ô De Cinema”, onde postam vídeos de suas canções, cotidiano e trailers dos seus filmes.

 

Cantando eles resistem, pois não há nada mais poderoso do que uma palavra que consegue ficar na mente de alguém atrelado à histórias e ao ritmo de um povo tão apaixonado por manter suas tradições vivas.

[AgôEmCasa] Mulheres indígenas - Povo fulni-ô

[AgôEmCasa] Mulheres indígenas - Povo fulni-ô

REFERÊNCIAS

BITTENCOURT, Miguel C.. 2019. “Unakesa”: uma expressão musical Fulni-ô (uma revisão). Pernambuco: UFPE-PPGA, Revista de Estudos e Investigações Antropológicas - REIA


ARRUDA, André V.. 2017. Processos de Aprendizagem Musical entre Estudantes Indígenas Fulni-ô em uma Escola Pública de Ensino Médio de Paudalho-PE. Paraíba: João Pessoa, dissertação de mestrado UFPB.


https://www.udesc.br/noticia/ndios_da_tribo_fulni-o__de_pernambuco__apresentam_cultura__rituais_e_religiosidade_na_udesc_lages#:~:text=Tr%C3%AAs%20ind%C3%ADgenas%20Fulni%2D%C3%B4%2C%20que,desta%20quarta%2Dfeira%2C%205

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Fulni-%C3%B4

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