
A palavra cantada dos Guarani Kaiowá
POR YARA LANES
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PARTE 1
Venho contar para vocês a história do povo Guarani Kaiowá tendo como base o texto “A arte da palavra cantada na etnia Kaiowá” de Graciela Chamorro, uma musicóloga, teóloga, historiadora e antropóloga especialista e referência nos estudos sobre os povos falantes de línguas Guarani, entre eles os Mbya, Ñandeva e Kaiowá. O guarani é falado por muitas etnias, incluindo as que vivem no Paraguai e Bolívia, mas se apresenta de diferentes formas, uma dessas variações é a falada pelas etnias mbya, Ñandeva e Kaiowá, o Tupi-Guarani, uma variante do idioma guarani que se inclui na família lingüística Tupi-Guarani, do tronco lingüístico Tupi.
Esses povos foram identificados por diversos nomes, os Guarani Kaiowá também são chamados de tavyterã ou paĩ-tavyterã, que significa "habitante do povo [aldeia] da verdadeira terra futura ". Já o nome "Kaiowá” vem do termo “KA’A O GUA” com o sentido de “aqueles que pertencem à floresta alta/densa”. Hoje ocupam principalmente o território do Mato Grosso do Sul, sendo um dos maiores povos indígenas do Brasil, travam muitas lutas contra fazendeiros, grileiros e instituições que ameaçam seu modo de vida e território, são críticos ao processo histórico de aldeamento imposto pelos não-indígenas, que tinham por finalidade educar uma suposta “evolução”, mas nada mais era que uma tentativa de integrar e assimilar de forma forçosa diversos povos originários à sociedade ocidental, de modo a suprimir suas verdadeiras identidades. Esse processo excluía a real ideia do que era o “Tekoha” na vida do Guarani Kaiowá, impedia a livre circulação no território (que regulava possíveis conflitos), característica importante do “Teko”, o modo de ser guarani. Tekoha é o lugar físico onde se realiza o Teko.
O mestre em educação indígena Eliel Benites afirma que o saber do povo Guarani kaiowá é caracterizado pelas singularidades da sua cosmovisão e que a sua expressão é a própria representação do Takoha, traduzido por território tradicional ou aldeia. Nela, o Guarani busca aproximar o seu modo de ser com o modo de ser de suas divindades por meio de seus ritos e assim edificando seu teko araguyje, o “jeito sagrado de ser”. Dentro dessa visão, a aldeia é um meio para construir a trajetória do jeito sagrado de ser, onde o indivíduo e a espiritualidade em contato resultariam na Tekoha Araguyje, a aldeia sagrada. Possuem como base a organização de família extensa, ou seja, grupos macro familiares organizados nas aldeias a partir de relações de afinidade e consanguinidade, cada família possui uma liderança, podendo ser homem ou mulher, que irá guiar os caminhos políticos e religiosos, decidindo o espaço que a família ocupará no Tekoha, por onde irá plantar sua roça e onde construirá sua moradia, possuindo também uma tendência à uxorilocalidade quando se casam, vivendo sob apoio político e econômico do pai da esposa, se organizam de forma que mesmo em caso de separação, não se perde os vínculos formados. Cada Tekoha elege também um chefe que irá representar aquele grupo nas relações com os não-indígenas, sendo essa uma característica importante para a luta política travada pelos Kaiowá por sua sobrevivência e para recuperar terras que lhes foram retiradas, sendo assim, nem sempre ocupam locais reconhecidos legalmente pelo Estado. Na luta para manter viva a tradição do sagrado, os rituais e cerimônias são conduzidos pelo ñanderu ou pela ñandesi e essas são as principais figuras da história musical, ou melhor, da história da palavra cantada deste povo.
Graciela Chamorro classifica três gêneros de palavra cantada dos kaiowá, são eles o ñembo’e, o guahu e o kotyhu. Na primeira parte desse texto, abordaremos o Ñembo’e que significa “proferir palavras”, também traduzido como “reza”, é um canto declamado e dançado pelos ñanderu ou ñandesi, a estrutura é recitativa, a melodia se mantém em torno de uma nota, com pequenas mudanças durante a reza correspondendo ao impulso da palavra, termo e acento nasal. O canto vibra no peito, com uma textura gutural na voz de quem guia, enquanto conta os mitos de origem, os outros participantes respondem com uma palavra correspondente a cada momento da reza.
Dentro do gênero Ñembo’e, a autora divide ainda quatros tipos considerados clássicos, são o ñembo’e itimby rehegua ou “reza relativa ao milho novo”; o jerosy puku, “canto-dança longo”, o jerosy mbyky, “canto dança-curto” e o ñembo’e kunumi mboro’yha que significa “reza para esfriar/acalmar a vida dos meninos”. O ñembo’e itimby rehegua é cantado logo no início, no primeiro dia da festa do milho, um longo ritual. Os homens seguem em fila, de frente a um par de bastões que simboliza a dependência vegetal, caminhando e cantando lentamente até os últimos bastões, alcançando o marãngatu, um pequeno altar feito de taquara, e comemorando com gritos de alegria. Destaca-se também o Jerosy Puku, o canto dança longo, é parte da festa do milho e do menino, é entoado em uma pulsação, acompanhando os passos da caminhada, possui uma pequena variação no ritmo, modulando a melodia no final das frases musicais. O canto é descrito como uma caminhada de dez horas ao redor de um dos pilares centrais da Og Gusu, a casa de reza. São narradas histórias sobre o surgimento do céu e da terra, sobre o nascimento e a cerimônia de nomeação dos Seres Divinos e dos elementos da natureza, sobre a ascensão dos Pais e das Mães das Palavras-almas às esferas celestes, sobre o nascimento do bastão de bambu usado pelas mulheres, o primeiro instrumento ritual, sobre a escolha do papagaio flamejante, o guardião do saber sobre o caminho que comunica a terra com o céu, sobre o estado de prontidão dos Seres Divinos para percorrer esse caminho, sobre o momento que o céu se abriu e a celebração de um rito de passagem espiritual. Na madrugada, realizam o ñembohehe avatípe, descrito como um “viva ao milho”, cantado em coro, de forma intensa, com pulsação mais acelerada, seguindo o movimento ternário sobre duas notas enquanto caminha um pelotão de homens como se fossem um só, acompanhando o guia enquanto exclamam gritos para afastar o sentimento enfrentado pela “Nossa Mãe” e pelos “Nossos Irmãos”; ali, juntam-se a tristeza de seus antepassados com as tristezas enfrentadas pela geração presente, nesse momento difícil, o guia precisa do apoio de seus ajudantes para abrir o caminho com seu canto-reza.
Exemplos de ñembo’e: Os DOIS vídeos a seguir são do grupo de dança Arandu Guarani e Kaiowá, da Aldeia Guapoy, Amambai, no Mato Grosso do Sul. O material é produto do projeto de pesquisa “Práticas tradicionais de cura e plantas medicinais mais prevalentes entre os indígenas da etnia Guarani-Kaiowá, na região Centro-Oeste”, coordenado pelo Dr. Paulo Cesar Basta e pela Dra. Islândia Maria Carvalho de Sousa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Jukeri - Grupo de Dança ARANDU Guarani e Kaiowá, Aldeia Guapoy, Amambai, Mato Grosso do Sul
As músicas do vídeo a seguir são ñembo’e ‘rezas’ e ñembo’e mborahéi ‘cantos-rezas’ da festa do avatikyry ‘festa do milho novo’, do milho branco kaiowá. O avatikyry é o principal ritual coletivo kaiowá na atualidade. Ñembo’e mborahéi ‘cantos-rezas’ têm caraterísticas de cantos e os kaiowá os consideram rezas e usam-os ritualmente. Para eles, o movimento das rezas é geralmente o de uma caminhada. E a interpretação kaiowá é de que essas rezas levam as pessoas a outros planos, propiciando encontros entre humanos e seres sobrenaturais. O vídeo é do Grupo Ñandesy ‘Nossas Mães’ do Panambizinho:

Ñembo'e - 'Tornarse palavra'
Um vídeo do coletivo Ascuri mostrando o trabalho de um Ñanderu recitando rezas e explicando a importância de se manter os ritos vivos. Filmado na aldeia Guyra Kambi’y do povo Kaiowá no Mato Grosso do Sul, retrata as diferentes fases da realização do ritual de batismo do milho branco, o Jerosy Puku. Os cantos e as danças que compõem a cerimônia conduzem a vinda de Jakaira, o dono do milho branco, entidade associada à fertilidade das roças.

JAKAIRA, 2019.
Existem registros de algumas das rezas relativas ao milho e a jerosy puku, veja a seguir:

Avati Moroti ha Mborahei - O Canto-Reza do Milho Branco
A autora explica que tal qual Jerosy Puku é precedido por uma reza própria do milho, o ritual de perfuração do lábio na festa de iniciação do menino também é precedido por uma reza própria para acalmar a vida dos meninos, é a kunumi mboro`yha. Esse ritual é de grande importância para formação do homem guarani kaiowá, sua primeira fase pode durar de um a três meses de reclusão com um instrutor, nesse momento o menino aprende tudo sobre o modo de vida kaiowá. Nos últimos dias de reclusão, seus pais constroem um “apyka”, um assento que representa o lugar firme onde a palavra-alma precisa ter para se assentar na vida do menino e crescer. Depois da cerimônia de perfuração, mulheres entoam o kuñangue jerosy e os homens entoam o avakue jerosy, para proteger o menino de todo mal, são rezas cantadas em voz grave.
A seguir, vídeo relacionado à festa de iniciação do menino, Kunumi Pepy, na Aldeia do Panambizinho, em Dourados no Mato Grosso do Sul:

Kunumy Pepy - 11min / 2010
Ainda dentro do gênero Ñembo’e, existe uma categoria de rezas diversas, são diferentes invocações cantadas, seguindo as mesmas características das rezas anteriores mas sem pressupor a dança. A ñevanga é uma categoria dessas rezas, são vistas como invocações de caráter mais doméstico, fazendo parte de sessões de cura, benção e aconselhamento. Poromotiha é entoada com o intuito de fazer retroceder algo ou alguém, servem para momentos de conflito, para desfazer um plano tramado contra alguém da aldeia, faz retroceder a ira de alguém e frequentemente é usado para lidar como os “mbaíry”, os brancos intrusos. Para conduzir alguém ao espaço espiritual, entoa-se a Poromondoha, sendo identificados pelo menos três tipos, uma reza para encaminhar a alma do morto, uma para encaminhar uma pessoa com deficiência e uma reza para conduzir uma pessoa em uma missão espiritual para colher informações em outros planos. Para uma caça bem sucedida, canta-se o Ñemoeondeha, tornando assim dóceis os animais de caça ou pesca, é uma reza curta, de linguagem hermética, pedem que o seres protetores das matas, representado pelo “Nosso Irmão Maior”, facilitem a caça conduzindo a presa no caminho do caçador.
Reza/Canto para o tratamento de pessoas com tuberculose (Hu'u poi) pela Ñandesy Orida Vilhalva:

Reza/Canto para o tratamento de pessoas com tuberculose (Hu'u poi)
CD de Rezas da Ñandesy Orida Vilhalva, produzidos em parceria com a Fiocruz em um estudo sobre o uso de ervas medicinais:

Takuapu Nengarai
No último dia de ñevanga, o ritual das palavras que curam, os Kaiowá cantam o Avyu Puku, o canto longo. Na música, os pássaros representam as almas de procedência divina. Acredita-se que quando uma pessoa fica doente ou abatida, sua alma voa para um dos patamares superiores, o oka ñeropavē, onde aguardaque o fará voltar para ao ombro da pessoa a quem pertence a alma:

Kwarahy Rendy Kyrỹipegwa - 'Reza à Tênue Luz do Sol'
PARTE 2
Trabalhando com base no texto “A arte da palavra cantada na etnia Kaiowá” de Gabriela Chamorro, chegamos a parte dois de nosso trabalho, onde são identificados os dois outros gêneros: O Guahu e o Kotyhu. O Guahu se divide em dois tipos de, o Guahu Guasu, o “ canto grande”, entendido pelos kaiowá como um canto próprio de seu povo, e o guahu’i, o “canto pequeno”, identificados por eles como os cantos da etnia Ñandeva. São entoados por homens e mulheres, podendo alguns serem restritos a cada grupo. O guahu guasu faz parte das festas do milho novo e da festa do menino, são acompanhados por uma dança em círculo com passos pequenos, junto ao guyrapa, o arco ritual. São cantos que carregam consigo uma narrativa, uma história cantada. Na festa de iniciação do menino, o dono do Guahu canta para cada menino e os conduz da cerimônia de perfuração do lábio ao interior da casa de reza. Após a perfuração, cada menino é vestido e protegido pelo guahu, sua mãe chora ao pé da rede que teceu para seu filho. Com todos os meninos iniciados, os participantes cedem o lugar para a reza das mães.
O guahu ai, ainda parte do conjunto guahu guasu, na festa do milho é cantado de madrugada, também é cantado em ritos de contexto familiar, são curtos, contam histórias de saídas para caças e pescas, e o protagonista dessa história é um animal. A dança que acompanha o guahu ai é feita em roda, de mãos dadas, acompanhando a letra ágil. A espontaneidade é um traço importante para a criação de um guahu ai seguindo um modelo aprendido.
O guahu’i, mais comum entre os Ñandeva, também é cantado pela etnia Kaiowá, são cantos curtos acompanhados por uma dança em roda de mãos dadas, a diferença do guahu’i entre as duas etnias é a inspiração utilizada, os Ñandeva se inspiram mais em flores e plantas para suas composições, enquanto os kaiowá se inspiram em animais. Os guahu’i apresentados pela autora possuem uma história de cortejo, as flores utilizadas pelos Ñandeva em suas composições fazem referência a mulher que está sendo cortejada por um pretendente.
A seguir alguns registros de Guahu:

Guahu- Os cantos mais lindos dos acadêmicos do Teko Arandu 2024
Já o Kotyhu, os cantos de encontro, são entoados em encontros sociais, servem como cantos de divertimento, já que não acompanham temas complexos dos mitos de origem e nem da religião. Guiados por um líder, dançam de mãos dadas em círculo movendo-se por diferentes direções, cantam mulheres, homens e crianças com refrão improvisado, relatando diferentes ações, como por exemplo chegar, ir embora, chorar, alegrar. Pode ser cantado no fim das cerimônias religiosas, como uma forma de regressar ao cotidiano. Uma característica interessante é a conexão do Kotyhu com o guahu ete, separam-se dois grupos, se um canta o guahu ete, o outro começará a cantar o kotyhu, criando assim uma representação de dois estados de ânimo, um dos cantos de encontro/divertimento e outro dos cantos lamentosos.
A seguir alguns exemplos de kotyhu:

Kotyhu Ypykue
Reportagem de 2014 onde são apresentados os instrumentos musicais e o significado deles na ritualística kaiowá:

Cultura Guarani Kaiowá, reportagem de Leandro Marques.
REFERÊNCIAS
CHAMORRO, Graciela. A arte da palavra cantada na etnia Kaiowá. In: Bulletin de la Société Suisse des Américanistes. Genève: Musée d'Etnographie, Boletim n. 73, 2011, p. 43-58.
BENITES, Eliel. Tekoha Ñeropu'ã: aldeia que se levanta. Presidente Prudente: Revista. Nera: Dossiê, 2020.
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Kaiow%C3%A1