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Dança dos Aruanãs: A Musicalidade Javaé

POR DAVI TEIXEIRA DA COSTA

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Dança dos Aruanãs: A Musicalidade Javaé - por Davi Teixeira da Costa

O povo Javaé, faz parte de uma população de povos originários pertencentes aos grupos de falantes da língua karajá, do tronco linguístico Macro-Jê , habitantes das margens do Rio Araguaia. Essa população, geralmente, são todos chamados pela antropologia de Karajás, dividindo-os em três subgrupos: Karajás, Javaé e Xambioá; denominados “subgrupos Karajás”. No entanto, há estudos mais recentes que destacam uma rejeição a essa ideia, por pertencentes de cada um desses povos, e buscam considerar cada um dos chamados subgrupos como uma etnia específica. Entretendo, não há como dissociar um grupo do outro, visto que os próprios Javaé que ao longo do processo de colonização e expansão territorial dos não-indígenas, se mantiveram mais isolados e dependeram dos denominados karajás para intermediarem na relação dos Javaé com essa nova população. Tanto os karajá quanto os Javaé autodenominam-se como; ItyaMahãdu (“o povo do meio”), em função de se entenderem como habitantes do mundo intermediário do cosmos, entre o mundo subaquático e o mundo celestial. Eles também designam-se como: AhanaÒbiraMahãdu (“o povo de fora” ou “o povo com a face de fora”), referenciando à ascensão mítica primordial, quando os seres humanos que habitavam no fundo das águas (um espaço fechado, abaixo do leito do rio Araguaia) saíram de baixo para o plano terrestre atual, concebido como um ambiente amplo e aberto. Outros fatores indispensáveis a se destacar são as questões da organização social, ritos e cosmologias que contêm profundas semelhanças. No livro “A origem da linguagem”, é abordado o mito de criação desses povos da seguinte forma:

“Para os karajás, povo indígena que habita a ilha de Bananal (TO), sua origem vem dos aruanãs, peixes que habitavam águas profundas. Um aruanã, afoito e curioso, nada para muito longe e segue um raio de luz que lhe permite ver sua sombra. Diverte-se com ela, mas, com medo, volta ao seu grupo. Sonha, então, com estranhas regiões. Torna a seguir o raio de luz e, ao chegar à superfície, fascinado, depara-se com um mundo de luz e calor, árvores, pássaros, lagos, céu e água. Transforma-se em gente de verdade corre pelos prados, ouve o canto dos pássaros, come as frutas silvestres, sente o perfume das flores. Mas ali também estão o sofrimento, o perigo e a morte. Volta para o mundo dos aruanãs e vira peixe de novo. Um grupo de aruanãs, maravilhado com o relato do companheiro, resolve repetir sua experiência. Um a um sobem à superfície e se transformam em gente de verdade. Para que sua transformação se complete, a fim de se adaptarem às novas condições de vida na Terra, têm de adquirir mobilidade que já existia nos primeiros habitantes. Assim, no processo de hominização dos aruanãs, um traço fundamental é o da aquisição de movimento, que passa a constituir o traço distintivo do homem de verdade, opondo-se, então à imobilidade dos pré-humanos do mundo subaquático”. (B. Franchetto e Y. Leite. 2004. p. 7, 8)

De acordo com a cosmologia do povo Javaé, a partir do momento em que os seres humanos submergiram do fundo das águas e passaram a habitar a terra, ficou a cargo dos Xamãs e homens em geral da comunidade, a tarefa de invocar os Aruanãs, seus ancestrais que se mantiveram habitando o mundo subaquático, para conhecer e se relacionar com o mundo da superfície e principalmente provar das comidas que estes têm a lhe oferecer. O ritual geralmente ocorre anualmente e é celebrado através da “dança dos Aruanãs”. Cada Aruanã é concebido como um duo, uma dupla quase que idêntica, recebida por casais que passam a ser conhecidos como “donos de Aruanãs” - que são responsáveis por sua alimentação e cuidados -, os Aruanãs são transmitidos dentro do círculo familiar, de uma geração para outra principalmente para os primogênitos, sem fazer distinção de sexo.

Durante a cerimônia, as duplas de Aruanãs dançam e cantam músicas de sua própria autoria, nesses rituais ocorrem vários “jogos” entre homens e mulheres e principalmente fartas refeições que são entregues em forma de oferenda dentro da “Casa dos Aruanãs” ou casa dos homens. O “pai de Aruanã” é responsável pela produção dos alimentos (cultivo, colheita, caça e pesca) e a “mãe de Aruanã” fica com a missão de preparar esses alimentos. Os casais de pai e mãe de Aruanãs são considerados mais honrados conforme a qualidade e abundância dos alimentos produzidos e servidos. Eles são avaliados por sua generosidade e harmonia com a comunidade e a natureza, para os Javaé, a ideia de o coletivo acima do individual e a coexistência harmônica com a natureza são princípios fundamentais da sua cultura.

A dança dos Aruanãs também demonstra uma conexão com a questão matrimonial, segundo a antropóloga Sônia Regina Lourenço em seu texto “A Dança dos Aruanãs: mito, rito e música entre os Javaé”:

 

“O ciclo cerimonial dos Aruanãs (Irasò) tem como prerrogativa central, a prestação matrimonial entre genros e sogros, [...] Pela regra uxorilocal, um homem ao receber a mulher de outro grupo (primo cruzado bilateral distante), entra numa relação de prestações matrimoniais, e passa a ter uma série de obrigações para com os sogros e cunhados. Assim, deverá pescar, caçar, cultivar a roça, arrumar a construção da casa, confeccionar cestos de palha, canoa, remo e pilão durante um bom tempo até que ele passe a ocupar a posição de sogro em relação a outro homem”. (Lourenço, 2008, p. 214).

A musicalidade dos Javaé expressada na dança dos Aruanã, é composta de diversos elementos. Trata-se de performances musicais, com movimentos coreográficos variando em sentido a terra e ao céu, brincadeiras e com linhas melódicas cantadas pelas duplas, acompanhadas de chocalhos feitos de casco de veado e cabaça de cuité amarrados aos pés com a função de compor a parte rítmica das canções. Há ainda diversificações na duração e intensidade das músicas executadas, de acordo com o propósito e período do dia. Mais longas e intensas para rituais no decorrer do dia e com menos intensidade e mais breves à noite. Os Xamãs também participam das práticas musicais já que também são donos de Aruanãs, eles cantam canções em rituais de cura.

Com isso, podemos ver que a música na cultura dos Javaé está totalmente entrelaçada ao seu modo de vida, aos seus princípios, aos seu entendimento de harmonia social, buscando através de sua musicalidade; honrar seus ancestrais e sua comunidade, manter um ideal de cooperação entre os pertencentes do seu convívio social, celebrar a vida respeitando e preservando a natureza e manter suas tradições e preservar sua cultura.

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Dança de Aruana do POVO JAVAE

Dança de Aruana do POVO JAVAE

REFERÊNCIAS

LOURENÇO, 2008, “A Dança dos Aruanãs: mito, rito e música entre os Javaé”

FRANCHETTO e LEITE, 2004, “Origens das Linguagens”

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Java%C3%A9#Dan.C3.A7a_dos_Aruan.C3.A3s

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