top of page
PHOTO-2023-10-08-12-25-07(1).jpg

O percutir do Tambor Ka’apor

POR JÉSSICA SANTOS

  Clique nas palavras destacadas ao longo do texto para acessar conteúdo extra  

O percutir do Tambor Ka'apor - por Jéssica Santos

Os Ka’apor estão localizados no sul da terra indígena do Alto Turiaçu no Maranhão. Com cerca de 1541 habitantes, segundo dados recolhidos pelo IBGE em 2010.  Sua língua é do tronco tupi.

Nos anos de 2014 e 2016 foi realizada uma pesquisa de campo que recolheu entrevistas, áudios, vídeos e fotografias nas aldeias Xipihu-Rena e Paracui-Rena para entender como o tambor é feito e utilizado pelos Ka’apor.

Os Ka’apor também usam os instrumentos de sopro como os  Aerofones (flauta, gaita), Membranofones (pandeiro, tamborim) e Idiofones (instrumentos onde o som é produzido pelo corpo). A pesquisa foi disponibilizada numa exposição no museu paraense Emílio Goeldi em Belém do Pará, com a apresentação do Etnomusicólogo Hugo Maximino Camarinha e da antropóloga Claudia Leonor López Garcés.

A abertura da exposição do museu Emílio Goeldi apresentou a Festa do Cauim,  que acontece na noite de lua cheia do mês de outubro como uma festividade que celebra a cura e a passagem das Ka’apor pela menarca, a primeira menstruação das meninas. Nela também  tem casamentos, a posse do cacique e principalmente a nomeação das crianças que nasceram, pois quem dá os nomes são os padrinhos escolhidos pela família. Durante o festejo, eles usam objetos de caça, cestarias, redes e instrumentos musicais que são o tambor e a flauta, criam rodas de dança na hora dos casamentos e bebem uma bebida fermentada de caju.

Falando mais especificamente sobre o tema desse texto, o tambor Ka’apor é feito em madeira de Cedro, coberto com Cipó-Titica e  colado com leite de Maçaranduba. Na Festa do Cauim, o tambor é usado com o movimento do macaco guariba. Quando o pajé Ka’apor assume os movimentos de animais ele age por influência de agentes não humanos em seus rituais xamânicos.

No passado, o tambor era de origem africana até que foi adotado pelos indígenas. A  semelhança dos Tupinambá com os Ka’apor, é que primeiro os Tupinambá usavam esse tipo  de tambor que falamos acima, logo depois os Ka’apor começaram usar também, porém de maneira diferente; entre os Tupinambá o tambor era  golpeado pelas duas mãos do tocador, já os Ka’apor tocam o instrumento com duas pequenas baquetas. Os Tupinambá só permitem que os mais velhos da aldeia toquem o tambor.  Para o povo Ka’apor, até os pequenos podem tocar o Tambor.  Já com os Tupinambás, os mais jovens também aprendem a tocar como um ato socioeducativo, porém não tocam em rituais e cerimônias.

Os Tupinambá se sentavam para tocar nos tambores, já os Ka’apor faziam seu uso na posição vertical, com o corpo levemente inclinado. Na aldeia Xipihu-Rena o tocador se coloca inclinado para frente, trazendo o Tambor para a diagonal preso por alças e suspenso ao seu ombro esquerdo, tendo suas pernas flexionadas impulsionando curtos saltos para trás e para frente enquanto tocam o tambor.

Durante os movimentos do Tambor podemos perceber que no interior dele pequenas sementes fazem o som de um idiofone. Com tudo isso, podemos notar o quanto o museu Emílio Goeldi foi rico em incluir as festividades na abertura da exposição, porque através dela, os Ka’apor puderam falar sobre sua cultura e também relatar os grandes problemas que vêm acontecendo na Amazônia do Alto Turiaçu. Diálogo esse que é fundamental, visto que na Amazônia do Alto Turiaçu atualmente, se encontra uma grande atuação de garimpo e extração de madeira ilegal, o que acaba provocando os conflitos territoriais. Por isso, o trabalho de troca e exposição cultural, são essenciais no meio ambiente que vivem.

Como estudante de Geografia, enfatizo essa questão porque muitos Ka’apor morrem todos os dias por conta dessa guerra. No ano passado, em 2022, o líder indígena Janildo Oliveira Guajajara foi morto por esse ato. A liderança Ka’apor era responsável pela fiscalização que buscava encontrar invasores, e por isso ele era repudiado e perseguido.

CURIOSIDADE E REFLEXÃO

Os Ka’apor possuem uma elevada taxa de surdez, uma inacreditável relação de 1 surdo para cada grupo de 75 indígenas ouvintes.

Isso começou por causa de uma epidemia de doenças da época, a taxa aumentou porque os Ka’apor decidiram não sacrificar as crianças igual aos outros povos indígenas, que sacrificavam qualquer criança que nascesse com alguma deficiência.

Os Ka’apor criaram uma língua de sinais própria, ela é utilizada tanto pela comunidade surda do povo, como também por seus membros não surdos, com a intenção de estabelecerem uma  comunicação geral.

Apesar de não ser apropriado ou ético fazer generalizações sobre o nível de surdez de um grupo étnico específico, em reuniões,  cerimônias e trocas com o homem branco, quantos Ka’apor surdos podem interagir?

É fundamental que exista a capacitação de intérpretes, para tornar cada vez mais inclusivo o acesso às línguas nativas e principalmente o estabelecimento de um diálogo claro entre os Ka’apor e os demais povos.

Ka'apor - Festa do kawi

Ka'apor - Festa do kawi

logos uerj - projeto mbaj

MBAJ - Histórias Musicais de Povos Originários Brasileiros©2022

Desenvolvido por Tatiana Agra

bottom of page