
Kaingang: Dos sons para o além, uma análise da música presente no ritual Kikikoi
POR JÉSSICA DOS SANTOS
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Olá amigos, Tudo bem ?
Atualmente na região Sul e no estado de São Paulo, habitam povos Indígenas pertencentes ao tronco linguístico Macro-Jê; com uma cultura caracterizada por princípios sócio-cosmológico dualista, apresentando um sistema de metade. Hoje eu vou falar para vocês sobre os Kaingang Xapecó que vivem no sul do Brasil.
No mito de origem da cosmologia Dualista Kaingang, temos Kamé e Kairu, que foram herois culturais, e segundo a tradição Kaingang, Kamé é o sol e Kairu é a lua. A expressão sociológica mais forte desta concepção dualista é o princípio da exogamia entre as metades na qual Kamé é força e potência e Kairu é a complementaridade que engloba seu contrário.
Na cultura Kaingang também temos os Kujãs, que são xamãs com conhecimento ancestrais ligados ao mundo espiritual. São curandeiros com poderes de visões, e capacidade de ligação a planos sobrenaturais, assim prevendo acontecimentos futuros. Esses poderes são recebidos pela sua conexão com a natureza e por um arquétipo de animal-guia.
A principal representação ritualística da Cultura Kaingang é a sua relação com a musicalidade e o Kikikoi, que em sua tradução significa a Celebração dos Mortos; um ritual no qual a sabedoria da ancestralidade se faz presente.
Nessa ocasião, quando há dois mortos recentes das duas metades, Kamé e Kairu, cada família solicita o ritual onde a celebração se divide em três fogos. O primeiro e o segundo podem durar de uma a duas semanas e o terceiro fogo, que é o mais importante, pode durar de um a dois meses.
No rito do primeiro fogo, os grupos são divididos em dois e são acesas duas tochas respectivas, a Kamé e Kairu, onde a atmosfera de manifestação musical começa. Rezadores e dançarinos cantam, o instrumento xykxy (chocalho) se faz presente, as Péins (Mulheres) e os Kujãs cuidam das pinturas faciais, e servem a bebida. No segundo fogo é repetida toda a rotina, entoando as rezas e as músicas. Passando isso, eles começam a se preparar para o terceiro fogo que é feito no cemitério. Os rezadores são responsáveis por irem a mata escolher um pinheiro de araucária, onde o tronco será transformado no Kõkei, para fazer misturas de mel e água começando o processo de fermentação para o Kiki enchendo e tampando o Kõkei para ser destampado no terceiro fogo. No momento mais glorioso do Kikikoi, é servida comida delicada e apetitosa para os visitantes, acreditando que os espíritos dos mortos estejam presentes e também que o entorno de uma fogueira é o lugar seguro para todos que entoam as rezas e fazem as pinturas.
No amanhecer da cerimônia do terceiro fogo, os participantes voltam para o pátio de danças, mantendo a divisão e depois unem-se para dançar todos juntos, onde todos são servidos de Kiki. A cerimônia se encerra quando a bebida acaba, e é virado-se o topo do kõkei para baixo.
Com bastante características em comum da musicalidade dos indígenas que habitaram na América, nessa cultura as canções também tem forte influência do sistema dualístico; existem canções que pertencem a Kairu e outras a Kamé, e a cada grupo as canções tem seu jeito e estrutura própria, como por exemplo nas vocalizações. Os Kamé têm uma sonoridade mais clara e audível diferente da sonoridade mais grave dos Kairus.
As canções tem base percussiva com xykxy dando a marcação. Há também canções que são acompanhadas de uma base percussiva com andamento diferente da melodia. Desse modo pode haver melodia rápida com acompanhamento lento e também o inverso, ou seja melodia lenta com acompanhamento rápido.
Mas saibam que existem instrumentos além dos chocalhos dando vida a instrumentação e enriquecendo as melodias como os violões que eles chamam de Turus, instrumentos de sopro feitos de taquara que têm um som que remete aos pássaros.
Ultimamente, os Turus aparentam ter uma nova variação, feitos de garrafas e canos; e depois um dos mais raros é o arco de boca onde também é chamado de violão de taquara, muitas vezes presente junto ao canto.
Nos rituais se fazem presente solistas e mestres de músicas, notoriamente um grupo mais velhos e mais aptos e também ajudantes geralmente mais jovens, onde se revezam sozinhos ou em conjunto e entoam sons ou ruídos com expressão de humor.
O curioso desse universo musical é que as canções com padrões diferentes conseguem em algumas vezes se complementar: expressando os princípios de dois vocais com dois tipos de padrões, volumes e entoações diferentes.
As melodias e os ritmos em combinações, a representação artística de danças, pinturas e coreografias, na forma de imitar movimentos animais, pertencente a cada grupo. Como de grande apresentação dualística.
Mas então galera, mediante tudo que foi apresentado acima, aqui terminamos a nossa história. Aprendemos o quanto é importante todo processo ritualístico, e o sistema dualístico com suas metades, Kamé e Kairu. Sendo de extrema importância todo o processo para o ritual dos indígenas Kaingang.
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Ritual do Kiki (Rogerio Rosa e outros 1995) - Filme Etnográfico
REFERÊNCIAS
https://dcmais.com.br/campos-gerais/povos-kaingang-contam-suas-historias-no-parana/
https://institutokaingang.org.br/2021/08/26/a-busca-de-indigenas-kaingang-por-trabalho-e-renda-na-pandemia-parte-2/
https://cimi.org.br/2020/09/povo-kaingang-da-ti-toldo-boa-vista-vence-batalha-historica-no-stf/
https://www.cantosdafloresta.com.br/povos/kaingang/






