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Espiritualidade
e musicalidade
do povo Kawaiwete

POR YARA LANES

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Espiritualidade e musicalidade do povo Kawaiwete - por Yara Lanes

Olá, venho contar hoje para vocês uma história do povo Kawaiwete. Eles também foram  chamados de “Kaiabi”, mas esse nome não pertence à língua dos Kawaiwete e não é sua autodesignação, devemos então chamá-los pelo nome que se auto designam: Kawaiwete, que significa “povo verdadeiro”. Esse povo foi abordado no texto de Elisabeth Travassos Lins com o título de “Música e Xamanismo entre os [Kayabi] do Parque do Xingu” escrito com base em duas viagens, uma de 1981 e outra em 1982, nessa época, os pesquisadores não possuíam conhecimento da língua Kawaiwete e enfrentaram sérias dificuldades na hora de registrar os cantos e traduzi-los, visto que até os próprios informantes Kawaiwete possuíam uma certa dificuldade de compreender os cantos, dada a complexidade do significado deles.

Esse povo é originário da região do rio Teles Pires no Mato Grosso, ocuparam também o rio do Peixe e viviam em aldeias dispersas ao longo dos rios. Foi um povo que sofreu grande assédio dos seringueiros, se envolveram em muitos conflitos para defender seu território e acabaram tendo sua maioria transferida ao Parque do Xingu, hoje designado por seus habitantes como “Território Indígena do Xingu”, após expedições da fundação Brasil Central chegarem a conclusão que o povo Kawaiwete estava em franco processo de aculturação. Apenas um grupo de 20 pessoas decidiu permanecer no rio dos Peixes, a maioria de sua população vive até hoje no Território Indígena do Xingu.

É muito interessante reparar na organização social dos Kawaiwete , diferente de outras etnias, a pajelança não é limitada aos homens, mulheres podem assumir essa posição mas com uma limitação, não podem cantar realizar o Maracá, um canto de sessões especiais de cura. É um povo com uma pajelança elaborada, com forte papel social, eles possuem um rico repertório de espíritos e entidades, essa pajelança se dá por meio de atividades musicais. Os pajés são solicitados em várias aldeias atendendo a pedidos de ajuda de famílias que solicitam a cura de doentes, se distinguindo a partir de sua capacidade de comunicar-se regularmente com o mundo sobrenatural sem ter prejuízo a própria saúde, sem atrair os chamados “Mamaés” que podem ser entendidos como espíritos invisíveis com o poder de adoecer ou roubar a alma do doente (Aian). Muito presentes na religião dos Kawaiwete, esses espíritos em muitas histórias são descritos como “nem bom, nem ruins” mesmo que estejam envolvidos diretamente com as doenças que podem atingir uma pessoa; o pajé quando faz sua investigação do que acometeu o doente, muitas vezes justifica que a intervenção maléfica do mamaé ocorreu por causa do comportamento do próprio doente, de seus pais ou de seu marido ou esposa e as justificativas apontam para importantes características morais desse povo, acreditam que essas doenças podem ser causadas por fofocas, pais negligentes, pais que agridem seus filhos, homens enraivecidos, pessoas preguiçosas e as que maltratam os animais.

O pajé Kawaiwete pode ser visto como um intermediário entre os dois mundos e sua iniciação acontece a partir de uma experiência de quase morte causadas geralmente por acidentes ou doenças prolongadas, podendo manifestar sua vocação vendo e ouvindo aos mamaés antes mesmo da experiência de quase morte; esse escolhido deve iniciar um treinamento oficial com um pajé, aprendendo os cantos, rezas e sabedorias de seu povo. Em uma história de iniciação, Timakaí, habitante de uma aldeia Kawaiwete foi buscar urucu em uma aldeia velha, lá percebeu ruídos vindos do mato, era um mamaé se aproximando mas ele nada viu, ficou doente e começou a ouvir uma voz cantando o maracá; preocupado por ouvir os cantos de pajé e ver os mamaés, foi até ao pajé Iuporiyawat após 3 meses adoecendo e se recuperando em diversas ocasiões, Iuporiyawat passou a ensinar a ele rezas, cantos e danças até que em determinado momento, Timakaí sofreu um grave acidente no rio resultando em uma experiência de quase morte, Iuporiyawat foi a seu encontro e o salvou com as rezas. Após isso, Iuporiyawat caiu doente e ordenou que Timakaí viesse para curá-lo, ele disse não saber ainda rezar mas Iuporiyawat disse “Você vai me curar como eu te curei” e assim foi feito, Timakaí rezou com  Iuporiyawat colocando as mãos na região doente, soprou fumaça no local até conseguir “pegar” o mamaé que estava no corpo do outro pajé. A partir daí, Timakaí começou a ouvir vozes cantando o maracá em seu ouvido e eram os mamaés ensinando a ele o que cantar, também passou a atravessar o mundo dos sonhos de outra forma, trazendo consigo premonições e diagnósticos para rituais de cura. Timakaí tornou-se pajé.

A religiosidade dos Kawaiwete é muito focada na cura, eles não se limitam a atender apenas os de sua etnia, existem relatos de até mesmo médicos não-indígenas que vivem e atendem nos postos médicos do território que já foram acolhidos nos rituais de cura. Graças a boa relação com a medicina tradicional e com os profissionais da saúde, os Kawaiwetes conseguiram crescer e resistir em meio a massacres, epidemias e conflitos; no censo realizado em 1955 existiam apenas 341 membros dessa etnia, enquanto em 2010, foram contabilizados o total de 1.093 kawaiwetes. Esse povo acredita que a medicina índigena, a reza e a medicina tradicional podem acontecer em conjunto, dentro dos postos médicos, afinal esse é um direito que deve ser garantido a esse povo.

 

Existem subgêneros dentro do maracá nomeados de acordo com o nome do espírito invocado, como por exemplo o Mait-ma-racá (maracá de Mait), Quanun-maracá (maracá do gavião), Viirafutat-maracá (maracá do caçador). Timakai cantava o Miat-maracá (maracá da onça), cada payé possui seu próprio repertório e esses cantos não falam dos homens, mas dos encontros do payé com mamaés, dos riscos das jornadas e a certeza de que tudo ficará bem. É uma forma responsorial do canto, com um solista masculino (o payé) para os versos e um coro masculino formado por um grande grupo de homens que vão acompanhados de suas esposas e filhos. De acordo com a autora, o maracá tem uma forma responsorial multiplicável ao infinito, sem clímax, sem grandes movimentos melódicos, sem grandes variações rítmicas e sem cadências finais com forte sentido conclusivo. É um canto firme e repetitivo, o ritmo binário é mantido durante toda sessão, com um ligeiro acelerar.

dança do chocalho " yafu" aldeia Capivara do povo Kayabi

dança do chocalho " yafu" aldeia Capivara do povo Kayabi

REFERÊNCIAS

 

LINS, Elizabeth. “Música e Xamanismo entre os [Kayabi] do Parque do Xingu”. Revista de Antropologia, v. 27-28, p. 127-38, 3 notações musicais. 1985. São Paulo: Universidade de São Paulo.

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