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Akias do povo Kisêdjê

POR YARA LANES

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Akias do povo Kisêdjê - por Yara Lanes

Hoje venho contar a história do povo Kĩsêdje e sua relação com a música. A base são os estudos de Anthony Seeger, um antropólogo que passou 18 meses em trabalho de campo morando com esse povo, aprendendo sua língua, caçando, pescando, plantando na roça, cantando e questionando. O convívio resultou em diversos trabalhos, entre eles o texto escolhido por mim: “Por que os índios Suyá cantam para as suas irmãs?”. Esse povo por muito tempo foi chamado de “Suyás” e passaram a se autodenominar “Kisêdjê” que significa “povo de grandes aldeias circulares”. A palavra Kĩsêdjê associada com a audição “kumba” tem um significado mais amplo do que a palavra "ouvir", significa ao mesmo tempo ouvir, compreender e saber. O trabalho em questão foi realizado em 1972, na época esse povo contava com 120 pessoas, em uma única aldeia às margens do rio Suiá-Missu.

O povo Kisêdjê são do grupo de língua Jê, e habitam o Território Indígena do Xingu no Mato Grosso, estima-se que chegaram ao Alto Xingu na segunda metade do século XIX, a convivência com outros povos alternava-se entre períodos de harmonia e hostilidade. Em meio aos conflitos, foram para o norte rumo a foz do rio Suiá-Missu, onde guerrearam e extinguiram os Manitsauá e capturaram mulheres e crianças Iarumã que passaram a fazer parte de suas aldeias, ficando assim os rios Manitsauá-Missu e Suiá-Missu o território dos  Kĩsêdjê. Hoje contando com 424 habitantes, estão divididos em aldeias e postos. Ngôjwêrê, aldeia localizada no limite da Terra Indígena Wawi, é onde vive a maior parcela da população.

São um povo que incorporou muito da cultura, costumes e tecnologias de outros povos com quem tiveram contato, mas sempre mantendo sua singularidade expressa em seus cantos ritualísticos e o uso de discos labiais e auriculares apontando para a importância do “ouvir” e “falar” nessa cultura. Mesmo que a prática do uso dos discos labiais tenha sido cada vez menos frequente, a importância do “ouvir” e “cantar/falar” não perdeu sua centralidade na cultura, a própria passagem das estações é marcada pela música.

Suas aldeias são organizadas com um círculo de casas em torno de uma praça aberta, onde se localiza a “casa dos homens”, esse é o cenário para uma série de ritos de passagem que marcam a vida dos homens dessa aldeia, e a música tem um papel central por meio da “Akia”, que significa “gritar”, é marcada por uma voz muito aguda entoada pelos homens sozinhos ou acompanhados. Akia não é o único gênero musical dos Kĩsêdjê, contando ainda com o “Ngere” (canções graves cantadas em uníssono) e o “agachitum ngere” (canções graves cantadas individualmente). Na Akia, o andamento e o ritmo são construídos ao som de chocalhos e batidas de pé, o andamento varia de acordo com o momento da cerimônia, em certo momento são interrompidas as palavras com sentido, começam a cantar com sílabas sem nexo, que eles chamam de “palavra de música”, servindo de suporte para a melodia.

 Cada um cria, ou herda, e canta sua própria Akia, no clímax final da cerimônia eles cantam por até 16 horas seguidas produzindo o que Seeger registrou como uma “(...) cacofonia impressionante”. Dos mais jovens é esperado que alcancem o tom mais agudo, enquanto os mais velhos, depois de décadas cantando agudo, possuem uma voz constantemente rouca, cantando em tom mais grave ou no falsete que denominam “prerrogativa dos velhos”. A criatividade para produzir uma boa Akia é sempre valorizada, quando dentro dos limites pré estabelecidos, como a estrutura caracterizada por uma divisão dualista em “início” e “fim”, aspecto ligado intimamente à estrutura dualista de organização social e cosmologia desse povo. A sociedade é dividida em vários tipos de metades: existem dois papéis de liderança; o céu é dividido em duas partes para indicar leste e oeste; os homens se dividem em dois grupos para cantar a Akia, e a própria Akia em algumas cerimônias é dividida em duas partes de acordo com a metade da aldeia que o grupo se localiza na hora de entoar o canto.

A nomeação dos animais, elemento frequente na composição vem da cosmologia Kisêdjê, a história contada por esse povo é de que receberam o fogo (e a prática de cozinhar) do Jaguar; o milho (e com isso a prática de plantar) veio do camundongo; e o sistema de nomeação (muito presente na Akia, onde é nomeado o animal) foi obtido do povo inimigo que vivia debaixo da terra. Os Kisêdjê vagavam na floresta até que por meio de vários incidentes, adquiriram esses conhecimentos que conforme o tempo, os animais e “o povo que vivia debaixo da terra” foram perdendo. Nesse processo de transformação mútua, é dito que alguns homens se transformaram em animais. O ato de aprender, criar e cantar novas Akias é um processo longo e permanente de obtenção de elementos do reino animal em proveito dos humanos, o animal nomeado é aquele de quem a canção foi aprendida e o cantor-compositor é aquele que tem um dom especial para ouvir e entender a língua desses animais e assim, da própria natureza.

 

A pergunta título do texto: “Por que os índios Suyá cantam para as suas irmãs?”, é respondida pela organização social desse povo marcada pela prática da uxorilocalidade, quando o homem casa, passa a viver na casa da família de sua esposa. Depois dessa transformação, o homem não deve voltar a morar na casa dos pais e nem comer com a irmã, porque nessa cultura, apenas casais, amantes ou grupos do mesmo sexo comem juntos. O homem também não deve abraçar a irmã, tal ato equivale uma forma de convite para o início de uma relação sexual, ele também se sente envergonhado em adentrar na casa de sua irmã onde está seu cunhado, então passam a cantar para suas irmãs, que atuam como juízes do desempenho das Akias de seus irmãos, ficam felizes com uma akia memorável e tristes quando recebem uma akia “pobre”. A separação da casa da família consanguínea é irreversível, e a akia permite que o homem se comunique com sua irmã sem ter que voltar para casa de seus pais. É importante destacar a existência de um grande valor atribuído à fala e ao canto como características da masculinidade, a própria boa oratória é uma característica essencial para a participação nos processos políticos da aldeia.

comemoração de prêmio ONU - Khisetje

comemoração de prêmio ONU - Khisetje

REFERÊNCIAS

 

Seeger, Anthony.  "Porque os índios Suyá cantam para as suas Irmãs?" in G. Velho (org.), Arte e Sociedade: Ensaios de Sociologia da Arte. Rio de Janeiro: Zahar, pp. 39-63.

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