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Taru Andek e a presença musical dos Krenak

POR DAVI TEIXEIRA DA COSTA

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Krenak é um povo originário do Brasil autodenominado “Borum”, localizado principalmente na região do Rio Doce, no estado de Minas Gerais e parte do Espírito Santo. Eles são um dos diversos grupos pertencentes ao troco Linguístico Macro-Jê. Ao longo da história, os Krenak enfrentaram desafios significativos, especialmente após a chegada dos colonizadores europeus, que resultou em conflitos, perda de terras e redução demográfica. Os Krenak possuem uma rica tradição cultural, que se manifesta em sua música, dança, artesanato e cosmologia. Suas práticas culturais são interligadas com a natureza, tendo um profundo respeito e conexão com a terra e os elementos naturais. A cosmologia Krenak é marcada pela crença em uma unidade entre o ser humano e o meio ambiente, onde cada ser tem seu papel e significado.


A organização social dos Krenak é tradicionalmente matrilinear, o que significa que as linhagens e heranças passam pela linha materna. Isso reflete um sistema de valores que confere grande importância às mulheres dentro da comunidade. As decisões são geralmente tomadas em consenso e a liderança pode ser exercida por anciãos respeitados que detêm conhecimento e sabedoria.


A história recente dos Krenak é marcada por lutas pela demarcação de suas terras e pelos direitos de seu povo. Nos anos 1980, as ações em defesa dos direitos indígenas ganharam força, e os Krenak se tornaram mais ativos na busca por reconhecimento e proteção de suas terras tradicionais. Em 1986, a Terra Indígena Krenak foi oficialmente reconhecida, mas desafios relacionados à exploração mineral, desmatamento e outros fatores ameaçam a integridade do território e a sobrevivência cultural da comunidade.


Os Krenak são um símbolo da resistência indígena e da luta pela preservação cultural e pelos direitos territoriais no Brasil. Apesar dos desafios enfrentados, essa comunidade continua a se afirmar, buscando garantir um futuro onde suas tradições e formas de viver em harmonia com a natureza possam ser preservadas para as próximas gerações. A história dos Krenak é um convite à reflexão sobre a importância da diversidade cultural e da preservação dos direitos dos povos indígenas em todo o mundo. Um dos maiores líderes dessa etnia é escritor, ativista indígena e agora imortal da Academia de Letras, Ailton Krenak que nasceu em 1953, na região do vale do rio Doce (MG), território do povo Krenak, um local afetado pela atividade de extração de minérios.


Em seu livro “A vida não é útil”, ele faz uma abordagem sobre o momento vivido pela humanidade na pandemia da covid-19: “Se durante um tempo éramos nós, os povos indígenas, que estávamos ameaçados da ruptura ou da extinção do sentido da nossa vida, hoje estamos todos diante da iminência de a Terra não suportar a nossa demanda”. Krenak também a falta critica a desvalorização das culturas indígenas dentro do sistema capitalista em que vivemos “Já vi pessoas ridicularizando: ele conversa com árvore, abraça árvore, conversa com o rio, contempla a montanha, como se isso fosse uma espécie de alienação. Essa é a minha experiência de vida. Se é alienação, sou alienado. Há muito tempo não programo atividades para depois. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã”.

 

Ao longo do processo colonizador o povo krenak sofreu uma forte tentativa de apagamento de sua cultura e identidade, por diversas vezes tendo que se readaptar a novas localidades, por conta da invasão e exploração de suas terras, sofreram influencias e imposições da cultura ocidental. No entanto, mesmo com toda essa opressão conseguiram preservar e por vezes ressignificar suas tradições. Uma das formas de preservar sua identidade é através de diversos rituais presentes na cultura Krenak, um deles é o Taru Andek.

 

O ritual Taru Andek é uma prática cultural muito importante do povo Krenak. Taru Andek significa “O encontro do céu com a Terra”, uma busca por equilíbrio e união entre o ser humano e a natureza. Esse ritual em geral é celebrado anualmente, presente nas reuniões do povo krenak compondo as práticas ritualísticas em conjunto nos seus sítios sagrados. Dentro da Cosmologia krenak se centralizam as entidades chamadas Marét, que são espíritos de instâncias superiores, os ordenadores da natureza. Entre esses espíritos o que mais se destaca é o Marét-khamakinian considerado um herói civilizador, criador dos seres humanos e do mundo, esses espíritos são frequentemente reverenciados no ritual Taru Andek. Durante o ritual, diversas músicas são cantadas, muitas delas com letras em sua língua materna que expressam elementos da espiritualidade, natureza e identidade Krenak. As músicas podem variar de um ritual para outro e em geral são transmitidas de geração para geração. Entretanto, informações detalhadas sobre as canções específicas do Taru Andek podem não estar amplamente disponíveis em fontes públicas, devido à natureza cultural e frequentemente restrita dessas tradições.

 

No livro “Cantos da floresta” são apresentadas algumas dessas músicas como: “Po Hamék” e “Kicrok Tondon Nukuin”.

 

Po Hamék é normalmente cantada por jovens e crianças, está presente no ritual Taru Andek como um canto de saudação, com o acompanhamento de batidas de pés e mãos e vem sendo passada de geração a geração desde o início do século XX, quando os Krenak depois de muito tempo voltaram a se reunir na margem esquerda do rio Doce, em Resplendor, MG.


De acordo com Ailton krenak, essa música é cantada para alguém presente e “cantada em pequenas reuniões no terreiro das casas, numa festa de aniversário, no pátio da escola, coletivamente, como as cantigas de roda. Ela é sonora, agradável e estimula a camaradagem e a brincadeira entre as pessoas, mesmo para quem não sabe o significado das palavras, que entram na roda, batem palmas, batem os pés e relaxam”.


Kicrok Tondon Nukuin é Tocada por flautas chamadas kicrock, é uma música de abertuda do ritual Taru Andek, invocando os espíritos marét, que são os protetores das pessoas na aldeia. Sua melodia, embora tenha uma estética aparentemente muito repetitiva, traz uma enorme diversidade de ornamentos a cada repetição, criando uma rica textura sonora. A música é composta de floreios da flauta mais aguda, e com uma flauta mais grave que vai levemente glissando entre uma nota e outra marcando a pulsação. Vale ressaltar que esses instrumentos não seguem aafinação temperada da música ocidental e a ornamentação apresenta uma vasta quantidade de microtons trazendo sonoridades características de povos tradicionais.

1. PO HAMÉK  - Brincadeira musical Krenak

1. PO HAMÉK - Brincadeira musical Krenak

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