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Os Suruí Paiter,
a Criação do Mundo, a Origem da Cantoria e o Roubo do Fogo

POR GUILHERME VAZ

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Os Suruí Paiter, a Criação do Mundo, a Origem da Cantoria e o Roubo do Fogo - por Guilherme Vaz

Os Suruí Paiter são um dos muitos povos originários daqui do Brasil, eles vivem na Terra Indígena Sete de Setembro, localizada entre Rondônia e Mato Grosso do Sul.  “Paiter” significa “gente de verdade, nós mesmos”, a língua deles é do tronco Tupi e da família linguística Mondé. Em 2003 eram 920 pessoas, segundo um relatório da PACA (Proteção Ambiental Cacoalense); eles se dividiam em diversas aldeias onde variava bastante o número de habitantes de uma para a outra. Mas de acordo com o censo de 2010, totalizam 2886 pessoas. O primeiro contato pacífico deles com os não-indígenas se deu a partir da FUNAI em 7 de setembro de 1969. Hoje em dia eles estão sofrendo grandes interferências dos não-indígenas; missionários da Assembléia de Deus e da Igreja Batista se encontram presentes e tem impactado em seus modos, induzindo uma grande parte dos pajés a deixarem de lado a pajelança, como podemos ler nas palavras de Almir Narayamoga Suruí:

“Temos muitos pajés que não atuam por causa das religiões. Os espíritos dos animais falam com os pajés e, devido às religiões, os Pajés disseram para os espíritos que não queriam mais ser Pajés, pois os espíritos tinham ciúme do deus das religiões".

Os Suruí possuem redes sociais ativas, as quais utilizam para compartilhar sobre sua história, mostrarem as pressões que sofrem com garimpeiros ilegais e dividir a luta por seus direitos com todos aqueles dispostos a participar.

O que descobri sobre os Suruí e trago para vocês foi baseado primariamente no trabalho de Betty Mindlin, uma antropóloga que tem alguns livros publicados sobre esse povo e pesquisa sobre eles desde 1980. Ela passou mais de um ano convivendo com eles, aprendendo a língua para assim poder traduzir suas histórias preservadas e passadas de geração em geração. Escreveu um livro chamado Vozes da Origem, que compõe uma coleção de mitos, tanto dos Suruí quanto de povos adjacentes, dos quais Betty aprendeu com os narradores mais velhos da aldeia, que por sua vez aprenderam essas histórias sem nenhuma intervenção externa, pois assimilaram estas antes do primeiro contato pacífico com os não-indígenas. Passado um tempo, os próprios Suruí pediram uma reedição do livro para que pudesse ser utilizado como material de estudo em suas escolas e para reescreverem em sua língua.

No mito da origem do mundo dos Suruí, eles contam como que há muito tempo atrás existiam outros humanos que conviviam com Palób (Nosso Pai na tradução literal) e junto existia um rei, muito poderoso. As araras também tinham certo poder que delas emanava, e um dia, um homem mal intencionado convenceu o rei a flechar as costas de uma arara que cantava por ali. Quando descobriram da morte dessa arara, as outras araras ficaram furiosas e o homem, traiçoeiro e mal intencionado, avisou ao rei diversas vezes que as araras queriam matá-lo, enquanto ele não acreditava, mas o homem insistia. A cada anúncio do ataque das araras, o rei se enfurecia mais e mais até que ele, com raiva, acerta uma flecha no peito de mais uma arara, e por conta desse pecado todos foram condenados por Palób a virarem animais. O rei virou cobra, condenado a rastejar por seus pecados, o homem desonesto se tornou um jabuti, para que com vergonha pudesse se esconder em seu casco, a flecha na arara se tornou jararaca. “Vocês agora serão a caça de meus filhos” disse Palób, ao criar os Suruí, que agora poderiam se alimentar da caça provida por seu criador. A imagem de Palób é atribuída à criação de diversos gêneros e temas musicais, portanto procuram obedecer às regras impostas por Palób para poderem criar e compor suas músicas.

Nesta nova configuração, todos os humanos antigos passaram a ser animais e os novos humanos, os Suruí, assumiram esse papel. Mas Pálob percebeu que os Suruí não tinham meios de cozinhar e passavam frio devido a carência de fogo, e agora o dono do fogo era Mekô, a onça. Pálob então manda Orobab, um pássaro preto de cauda comprida, para que vá roubar o fogo do covil das onças. Para que ele não seja devorado, Pálob passa um veneno em suas penas, assim impedindo as onças de comerem o pássaro. Chegando na morada das onças, Mekô questiona a suposta visita de Orobab que prontamente responde que se perdeu passeando com saudades de sua mulher. O pássaro então se senta próximo ao fogo e Mekô adverte para que se afaste se não irá se queimar com o fogo, Orobab obedece, mas mantendo sua cauda sempre próxima ao fogo. Passado um tempo da conversa, e algumas advertências de Mekô, sua cauda começa a pegar fogo e o pássaro alça voo, com a onça o perseguindo. Chegando aos humanos, o pássaro pôs em chamas árvores de urucum e pau-brasil, duas das árvores usadas pelos Suruí para fazer fogo com seus galhos. Enquanto isso, o fogo de Mekô se extinguiu e as onças foram condenadas a comer carne crua durante sua existência.

História da Criação do Mundo e a Origem da Cantoria

História da Criação do Mundo e a Origem da Cantoria

REFERÊNCIAS

MINDLIN, Betty. Nós Paiter: Os Suruí de Rondônia. 1985


MINDLIN, Betty. Vozes da Origem. 1996


SURUÍ PAITER. PIB Socioambiental,

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Surui_Paiter

Acesso em: 9 de julho de 2023


POVO PAITER SURUÍ. Histórias da criação do Mundo e a Origem da Cantoria

Youtube 8 de julho de 2023. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4hnfVyTwqf0&ab_channel=PovoPaiterSuru%C3%
AD Acesso em: 9 de julho de 2023

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