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Os primeiros passos dos Tenetehara

POR MARIANA SANTOS

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Os primeiros passos dos Tenetehara - por Mariana Santos

Os Tenetehara são um grupo indígena que habita a Amazônia Ocidental e compreende dois ramos: o ramo ocidental, que constitui os chamados Tembé, e o ramo oriental, composto pelos Guajajara. O texto que utilizei como base para esta pesquisa é a dissertação do cartógrafo Elson Gomes da Silva, chamada “Os Tenetehara e seus Rituais: um estudo etnográfico na Terra Indígena Pindaré”. O autor explica que embora os indígenas observados em seu trabalho fossem identificados pelos brancos como Guajajara, optou por fazer uso do termo Tenetehara por ser a forma como eles se autodenominavam entre si. 

 

Dentre os rituais Tenetehara relatados por Silva, a Festa do Primeiro Ano ou Festa da Criança me chamou a atenção especialmente. É um ritual de preparação para a vida onde as crianças Tenetehara são purificadas para que possam atravessar a infância e chegar à adolescência com saúde. O autor observa que a Festa marca o momento em que a criança começa a andar, a dar seus primeiros passos. Entretanto, aqui aparece uma interessante divergência entre o ritual observado por Silva e a Festa relatada pelos antropólogos Eduardo Galvão e Charles Wagley na década de 1940. Dentre as diferenças dos rituais analisados, o relato dos antropólogos marcava o momento em que os bebês começavam a engatinhar. Além disso, Galvão e Wagley descrevem a Festa como uma “cerimônia extremamente simples” e que, por isso, dispensava a presença de cantos e danças. Silva, ao contrário, observa uma festa de tamanha importância para os Tenetehara que os cantos e a dança se tornavam elementos indispensáveis. Aqui fica marcada uma interessante identificação entre a música, a dança e a importância da cerimônia para esta etnia.

 

Segundo Silva, quando uma criança começa a andar nas aldeias Tenetehara, sua festa começa a ser preparada através da caça aos animais necessários ao ritual – que podem ser o nambu ou animais pequenos e de pelo como a cutia ou a paca. Quando o animal é abatido, sua carne passa por um processo de moqueamento que a conservará até o dia da Festa. Na noite anterior à Festa, ocorre um ensaio com os cantores, que se estende até o amanhecer. A cantoria, assim, inicia o ritual, que pode ter duração de dois ou três dias. As crianças são colocadas em cima de esteiras de palha de babaçu, feitas pelas mulheres mais velhas, e em cima das esteiras são, então, pintadas com suco de jenipapo. Aqui tem início um momento delicado. Isso porque devido ao jenipapo, as crianças ficam vulneráveis a espíritos que são atraídos pelo fruto. Desse modo, para proteger as crianças, seus pés são cobertos com alho e o ambiente é purificado com um defumador de amescla nos horários de meio-dia e dezoito horas, os mais perigosos.

 

Depois da pintura, os Tenetehara, sentados em bancos de madeira, participam de cantos acompanhados de maracás e do bater dos pés no chão de acordo com o ritmo da cantoria. As mulheres participam como uma segunda voz enquanto dançam atrás ou ao lado dos cantores. Os cantos, que fazem menção aos animais da natureza, são divididos em turnos. Assim, existem os cantos da manhã, os que são cantados à tarde e os cantos da noite, sendo proibido cantá-los em horários incorretos. A Festa prossegue até a manhã do dia seguinte, com intervalos nos horários de meio-dia e às dezenove horas para a alimentação dos participantes. O moqueado é misturado com farinha de mandioca, comido por todos e passado nas articulações das crianças.

 

Depois disso, os cantores se posicionam e reiniciam seus cantos. Os pais ficam em frente aos cantores junto às crianças e seus familiares. Os cantos começam baixo e gradativamente eles vão aumentando o tom das vozes. O autor relata que nesse momento, alguns dos cantores parecem entrar em estado de transe, muito concentrados, sem perderem o ritmo. Além disso, observa que o canto final, realizado apenas pelos cantores principais – os mais velhos, detentores desse saber – é algo que comove todos os participantes. A importância do canto neste momento para os Tenetehara se intensifica devido às lembranças boas do passado que ele evoca. Os participantes dançam em círculo até o final do canto e, ao seu término, se cumprimentam e se abraçam, emocionados. Para os Tenetehara, a Festa da Criança é uma oportunidade de ver seus filhos, netos e bisnetos vivenciarem um ritual de preparação para a vida pelo qual todos eles já passaram um dia.

tenetehara
festa das crianças, aldeia Monalisa.

festa das crianças, aldeia Monalisa.

REFERÊNCIAS

 

SILVA, Elson Gomes da. Os Tenetehara e seus Rituais: um estudo etnográfico na Terra Indígena Pindaré. Dissertação (Mestrado em Cartografia) - Universidade Estadual do Maranhão. São Luís, 103 f. 2018. Disponível em: https://www.ppgcspa.uema.br/wp-content/uploads/2018/12/OS-TENETEHARA-E-SEUS-RITUAIS-um-estudo-etnogr%C3%A1fico-na-Terra-Ind%C3%ADgena-Pindar%C3%A9.pdf. Acesso em: 7 maio 2024.

 

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