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Terenas: A dança para permanecer

POR RYAN IRAÇABAL

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Terenas: A dança para permanecer - por Ryan Iraçabal

[1] “Diz que antigamente não havia gente. Bem-te-vi, vítuka, descobriu onde havia gente debaixo do brejo. Bem-te-vi marcou o lugar aos Orekajuvakái que eram dois homens e estes tiraram a gente do buraco.

Antigamente Orekajuvakái era um só e quando moço sua mãe ficou brava, pois Orekajuvakái não queria ir junto com ela à roça. Foi à roça, tirou foice e cortou com ela Orekajuvakái em dois pedaços. O pedaço da cintura para cima ficou gente, e a outra metade também.

Antes de tirar gente do buraco, Orekajuvakái mandaram tirar fogo, iukú. Pensaram quem vai tirar fogo. Foi o Tico-tico, xavakóg. Ele foi e não achou fogo. Depois foi o coelho, kanóu. E tomou o fogo dos seus donos, os Tokeóre.

O kanóu chegou aonde os Orekajuvakái estavam e foram fazendo grande fogueira. Gente levantou os braços e Orekajuvakái tirou do buraco. Toda gente era nu e tinha frio e Orekajuvakái chamaram para ficar perto do fogo. Era gente de toda raça.

Orekajuvakái sempre pensaram em fazer falar essa gente. Mandaram-na entrar em fileira um atrás do outro. Orekajuvakái chamaram lobinho, okué, para fazer rir a gente. Lobinho fez macacada, mordeu do próprio rabo, mas não conseguiu fazer rir. Orekajuvakái chamaram sapinho, aquele vermelho, kalaláke. Este andou como sempre anda e a gente começou a dar risada. Sapinho passou ida e volta ao longo da fila três vezes. Aí a gente começou a falar e dar risada.

Orekajuvakái ouviram que cada um da gente falou diferente do outro. Aí separaram cada um a um lado. Eram gente de toda raça. Como o mundo era pequeno, Orekajuvakái aumentou o mundo para o pessoal caber.

Orekajuvakái deu uns carocinhos de feijão e milho e deu mandioca também e ensinou como se planta. Deu também semente de algodão e ensinou como tecer faixa. Ensinou a fazer arco e flexa, ranchinho, roçar e plantar.”

Depois da última carta, continuei a pesquisar mais sobre as origens do Brasil. Sabemos agora que essas terras sul-americanas já possuíam verdadeiros donos e guardiões. Uma dessas nações que aqui já vivam são os Terena, ou Guaná, que se destacam e muito pelo comércio com outros povos e pela língua que muito se difere do famoso Tupi- Guarani.

A história (para os purutuyé) começa muito depois no século XVIII com os primeiros relatos desse povo na região do Êxiva, ou Chaco, região que compreende a Bolívia, Argentina, Paraguai e Brasil.

Ao contrário do Tupi, ou mesmo o da Língua Portuguesa, veremos que o tronco da língua dos Guaná (Terena) é o Arwak. Esse tronco linguístico pode ter ramos rastreáveis até às ilhas do Caribe. Apesar de terem sido muito mais extensos antes da chegada dos espanhóis nas Américas no século XVI, os Terena continuaram a se espalhar. E por essa “expansão” de origem forçosa e violenta por conta da invasão espanhola e posteriormente portuguesa, os Arwak se subdividiram.

No livro “A História do Povo Terena”, Circe Maria Bittencourt e Maria Elisa Ladeira relatam que atualmente todos esses povos estão sob a denominação de Terena (Etelenoe), mesmo os mais velhos sabendo que são descendentes dos Layana ou Kinikinaua (Equiniquinao).

[2] “Meu sogro, pai de minha mulher... Ele contou a história do Êxiva, de onde eles vieram fugindo. Meu sogro também veio de lá. Eles não sabiam falar o português, só falavam o Terena e não sabiam ler nem escrever... Não sabiam nada, mas sabiam o tempo que as árvores floresciam todos os anos. No mês de agosto começavam a derrubar o mato para plantar. Plantavam só um pedacinho de terra, mas dava uma produção grande, com fartura... Não faltava nada para o índio comer. Tinha bastante peixe e caça. E muita mandioca para comer.”

 

Ainda na região do Êxiva. Os Terena haviam estabelecido várias relações com as outras nações que ali habitavam. Essa forte relação de comércio permanece viva até hoje com a população de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul. Entretanto, o forte comércio com outras populações ao redor dos territórios Terena não garantiu, hoje, uma convivência saudável, digna e respeitosa para esse povo. A proximidade com Campo Grande e a exposição a diversas formas de exploração, a exemplo dos trabalhos nas lavouras de cana de açúcar, fazem com que os Terena tenham sua resistência histórica colocada em dúvida por não-indígenas, a fim de deslegitimá-los [3]. Desde os primeiros deslocamentos do Norte da América do Sul até o primeiro contato com os purutuyé no século XVI na região Sul e Central do Brasil, o comércio e a “lei da boa-vizinhança” sempre foram a política dos Terena. Habilidosos agricultores desde o Êxiva, usaram essa característica para que as aldeias crescessem e se fixassem.

Isso ficou eternizado na principal manifestação cultural Terena que existe, a Kohixoti-Kipaé (Conhecida também como Dança da Ema, Dança do Bate-Pau, Chiputela  ou ainda Seputérenoe) e a dança do Putu- Putu que é uma dança feminina  que ocorre junto à dança da Ema. Especificamente na Aldeia Limão Verde, os festejos são comemorados no dia 19 de abril. Um detalhe importante é que os Terena possuem duas danças divididas por gênero, assim como outras atividades sociais. A Dança da Ema só os homens praticam, a dança do Putu- Putu são as mulheres. As duas ocorrem ao mesmo tempo na aldeia, mas em lugares distintos. As mulheres e meninas retiram todos os adornos que vieram dos purutuyé e colocam suas roupas de festa. Em manifestações como essas os homens recusam convites de apresentações que não se estendem ao grupo feminino, as duas danças não se complementam, são distintas, mas fazem parte de uma mesma tradição e, por isso, não se dissociam.

[4] “Batidas fortes ao tambor. Passos cadenciados que aumentam a expectativa dos observadores. Uma volta em todo o pátio. Um grito chama para o início dos primeiros movimentos, agora realizados pelo som do pife, acompanhado do tambor. As passadas agora expressam força e ao mesmo tempo mostram leveza, em sincronia com o suave e repetido toque do pife. A cada momento, um chamado para que os movimentos sejam executados [...]. Mudança de movimentos. Temos o som do pife, do tambor e das taquaras que batem entre si, intercalados pelos gritos do cacique do bate-pau. Segundo momento. As taquaras são substituídas pelos arcos e flechas, que a esta altura, reinicia os movimentos [...]. Trocam-se os arcos e flechas, pelas taquaras. Últimos movimentos marcados pela expectativa do alçar de um dos caciques ao espaço. São erguidos três caciques, o adulto que coordenou toda a dança, experiente membro da comunidade, que se mantém em pé, apoiando fixamente os pés nas taquaras cruzadas e seguradas pelos outros dançarinos; o segundo um menino de doze anos, que não consegue apoiar o suficiente para se manter em pé e cai entre os demais; a terceira, uma mulher da comunidade, que permanece sentada, talvez sua maior dificuldade para conseguir se apoiar entre as taquaras seja a deficiência que tem no pé, conhecida como pé torto. Após a descida de cada um deles, são substituídos por escolhidos e prestigiados da comunidade [...]; inicia-se o passeio final, os dançarinos seguem adiante batendo as taquaras no chão, acompanhados dos dois músicos que tocam cadenciadamente, até que o público os percam de vista.”

Essa dança gira em torno de toda a história Terena, desde a saída da região do Êxiva até às primeiras guerras travadas ao lado dos portugueses. Ela retrata os mitos de criação Terena, as guerras, o êxodo de vários povos de tronco Arwak do Êxiva, as vitórias e até mesmo fim de todo o mundo.

Reza a lenda que existe uma Ema, dotada de muito poder, vivendo no céu, na região das Plêiades. Essa Ema foi a mesma que revelou em sonho para o Koxoimuneti as estratégias de batalha de antigas e importantes guerras os levando até a ponto de vitória. Esse mesmo animal sagrado serviu de inspiração para a dança, grafismos corporais para as festividades, as plumas para as primeiras roupas da dança e servirá como anunciadora do fim, quando descerá dos céus e devorará os olhos dos homens.

Essa dança e as festividades Terena são amplamente comemoradas pelas comunidades e vida urbana ao redor do TI fortalecendo o laço entre o TI e a cidade. Nada impede que indígenas tenham os mesmos direitos que os não indígenas. Na aldeia Limão Verde, por exemplo, há uma escola indígena onde 13, dos 19 professores indígenas, que trabalham juntamente com outros professores não indígenas, possuem ensino superior [5]. O comércio das mulheres Terena na capital Campo Grande com seus artesanatos é um ponto forte dessa relação entre aldeia e cidade. Entretanto, isso vem sendo usado como assimilação da cultura Terena. Correndo o risco de tornar-se só mais uma manifestação popular. Como já dito, as relações de trabalho entre indígenas e grandes fazendeiros e empresários é de enorme desrespeito e desvalorização. Mesmo que a dança da Ema represente guerras ao lado dos portugueses e posteriormente vitória, e hoje seja apresentada em escolas do município, o caminho para a convivência saudável, respeitosa e pacífica ainda é longo e árduo. Demarcação de terras, desmatamento, urbanização e assimilação da cultura Terena são os grandes desafios que perduram desde à colonização.

Canto Terena

Canto Terena

REFERÊNCIAS NO TEXTO

[1] https://biblioteca.trabalhoindigenista.org.br/wp-content/uploads/sites/5/2018/06/A-Historia-do-Povo-Terena.pdf - Último acesso em 27/06/2023 - Relato oral do mito de criação do povo Guaná (Terena) por Antônio Lulu Kaliketé, traduzido para o português por Ladislau Haháoti. (BITTENCOURT, Circe Maria / LADEIRA, Maria Elisa, A História do Povo Terena, pg. 23 e 24, Universidade de São Paulo, MEC, 2000) 

[2] https://biblioteca.trabalhoindigenista.org.br/wp-content/uploads/sites/5/2018/06/A-Historia-do-Povo-Terena.pdf - Último acesso em 26/07/2023 - Relato de João Martins - Menootó - Aldeia Cachoeirinha (BITTENCOURT, Circe Maria / LADEIRA, Maria Elisa, A História do Povo Terena, pg. 36, Universidade de São Paulo, MEC, 2000)  

[3] https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/ms-violencia-economica-e-territorial-contra-o-povo-terena/ - Último acesso em 23/04/2023

[4] https://core.ac.uk/download/pdf/33533781.pdf - Último acesso em 27/06/2023 - (TERENA, Naine de Jesus, Kohixoti- Kipaé, Resistência e cotidiano Terena, pg. 58, Universidade de Brasília, UnB, Brasília, 2007)

[5] https://cimi.org.br/2005/03/23324/ - Último acesso em 23/04/2023

REFERÊNCIAS

https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Terena

Último acesso em 24/04/2023

https://cpisp.org.br/indios-em-sao-paulo/povos-indigenas/terena/

Último acesso em 24/04/2023

https://cimi.org.br/2005/03/23324/

Último acesso em 24/04/2023

https://jornal.usp.br/universidade/eventos/indios-terena-contam-sua-historia-e-cultura-em-exposicao-na-usp/

Último acesso em 24/04/2023

http://educommais.educacao.rs.gov.br/roteiro-de-estudo/terena-povos-indigenas-no-mato-grosso-do-sul-65277

Último acesso em 24/04/2023

https://biblioteca.trabalhoindigenista.org.br/wp-content/uploads/sites/5/2018/06/A-Historia-do-Povo-Terena.pdf

Último acesso em 24/04/2023

https://mapadeconflitos.ensp.fiocruz.br/conflito/ms-violencia-economica-e-territorial-contra-o-povo-terena/

Último acesso em 24/04/2023

https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/3753/1/2007_NaineTerenadeJesus.PDF

Último acesso em 24/04/2023

https://escolaweb.educacao.al.gov.br/roteiro-de-estudo/danca-do-bate-pau-do-povo-terena-65223

Último acesso em 24/04/2023

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