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Cantos de honra
e resistência dos Tupinambás

POR RYAN IRAÇABAL

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Cantos de honra e resistência dos Tupinambá - por Ryan Iraçabal

Olá! Tudo bem?

Eu estava muito ansioso para poder te contar sobre os Tupinambás! Depois de muitos textos lidos, agora posso te falar um pouco sobre esse povo incrível! Nessas pesquisas, descobri que eles ocupavam grande parte do litoral brasileiro, do Nordeste até o Sul do Brasil. Ao final do século XIX, o censo estimou 900 habitantes em sua população. O mais recente, divulgado em 2014, contabiliza 4631 habitantes Tupinambás na região de Olivença, abrangendo também as comunidades de Buerarema, Ilhéus e Una. Então você me pergunta “o que significa Tupinambá?”, significa “descendentes dos primeiros pais”. Isso tem muita relação com a crença de que a maioria dos povos originários do Brasil partilhavam a crença de que todos eles vieram de grandes e poderosos heróis. Outro significado muito aceito também é “todos da família dos Tupis”, o que reforça a ideia de que Tupinambás são todos aqueles que falam alguma derivação do idioma Tupi-Guarani. No final do século XVIII, referências dizem que o português era muito falado entre os habitantes da vila de Olivença, fundada pelos jesuítas como Nossa Senhora das Escadas, mas o Nheengatu, a língua geral, era falado pela maioria. Apesar dos Tupinambás serem todos aqueles que falam uma derivação desse idioma e ocuparem todo o litoral brasileiro, os principais povos da grande nação que foram os Tupinambás viviam na região Sudeste e, ainda hoje, no litoral sul da Bahia.

Em um dos textos que li, tinham relatos muito antigos, um dos primeiros sobre os povos originários do que conhecemos hoje como Brasil. Um dos estudiosos dos Tupinambás foi Jean de Léry, um pesquisador francês que no século XVI veio até o Brasil para estudar essas grandes sociedades que aqui já viviam. Eu li tudo isso no livro “A religião dos Tupinambás”, de Alfred Métraux, com prefácio, tradução e notas do Professor Estevão Pinto. Nesse livro estão alguns dos mais importantes relatos de Jean de Léry.

Agora, vou direto ao ponto que quero compartilhar com você, que são as histórias de Léry sobre a musicalidade dos Tupinambás, com suas danças e festas . Nesses trechos, um dos que mais me chamaram a atenção foi de quando Léry e seus companheiros pesquisadores puderam vislumbrar uma dessas festas, um momento muito importante e de muita emoção para eles. Em um dia, os homens Tupinambás pediram para que Léry e seus companheiros fossem para uma das moradias daquele lugar e ali ficassem. O mesmo aconteceu com as mulheres e as meninas mais jovens. Enquanto Léry e os outros estavam separados dos outros homens Tupinambás, puderam ouvir outras vozes de várias outras pessoas chegando pela floresta. Eles iam se juntando no pátio central conforme mais gente ia se aproximando, somando de 200 a 400 homens no pátio. Léry viu tudo isso pela fresta da janela, ficando cada vez mais curioso com isso.

Nesses textos eu pude descobrir também que a música para eles era mais que um instrumento de rituais importantes ou de pura celebração. Descobri que quem sabia e podia criar mais cantos era considerado o que Léry chamou de um “feiticeiro”, um grande líder cerimonial. Na sociedade Tupinambá esse era o cargo do Pajé, um cargo de alto poder e valor, principalmente espiritual.

Enquanto Léry espiava pela fresta da janela da moradia onde ele e seus companheiros ficaram separados, notou um sussurro bem baixinho começar no pátio central. Ele não entendeu o que estava acontecendo, na verdade estava começando a ficar assustado. Afinal, os Tupinambás eram também muito conhecidos por praticarem rituais antropofágicos, canibalismo. Léry conseguiu identificar que era o Pajé quem começou esse burburinho no meio do pátio e, quanto mais vozes se juntavam a esse sussurro ritmado, mais eles se organizavam em círculos, um círculo menor no centro, outro maior ao redor do menor e assim por diante. Os sussurros aumentaram, agora eram palavras cantadas, mas ainda era muito baixinho. Tudo isso ritmado pela maracá do Pajé e seu canto forte que de início parecia um segredo profundo. Depois que os homens estavam organizados em círculos, Léry os viu começarem uma dança que seguia tanto o ritmo da maracá quanto o canto baixo do Pajé. O canto foi ficando cada vez mais denso, mais e mais intenso, assim como os passos que foram ficando mais marcados. Um por um daqueles homens foi seguindo e repetindo os segredos profundos do Pajé, que logo se tornaram um ecoar estrondoso no meio da floresta. Era anunciada uma nova cerimônia.

Lendo os relatos de Léry, também fiquei curioso, mas ainda tinha muita coisa por vir. Quando ele já havia entendido o que estava acontecendo, na moradia ao lado as mulheres também começaram a sussurrar. Sussurravam os cantos ocultos do Pajé, que logo se tornaram uma música alta e todos ali e ao redor daquele lugar já podiam conhecer. Não só isso, as mulheres Tupinambás, ao contrário dos organizados e contidos homens, gesticulavam muito. Léry disse que conforme o som das mulheres ia aumentando, repetiam isso quase como em transe, se sacudiam, dançavam e balançavam seus enfeites.

Quando eu pensei que não fosse ter mais surpresas, Léry escreve que vez ou outra alguém se destacava na roda dos homens e entrava no meio. Aí é que dançavam ainda mais, dançavam até cansar. E quando dois se destacavam? Aí é que ficava sério. Os dois competiam entre si em passos de dança que mais pareciam um tipo de luta corporal. Essa festa não iria terminar tão cedo, mais e mais pessoas chegavam de toda parte do litoral. Pegavam vasilhas, chocalhos, maracás e até armas de guerra para poder acompanhar a música do Pajé. Pelo o que li, Léry ficou tão mergulhado na beleza daquela festa que acabou esquecendo de perguntar o motivo de tanta animação, mas na maioria das vezes eles cantavam em celebração dos seus guerreiros, em memória daqueles já foram e em honra aos Encantados daquela região. Cantavam inclusive em honra aos guerreiros dos povos inimigos que eram derrotados. Eles os capturavam e os tratavam como se fossem da família até o dia da cerimônia onde o seu destino seria selado. Ainda assim, a preparação do corpo do guerreiro inimigo era feita com muito cuidado e muitos detalhes, inclusive com cantos ao redor do guerreiro que logo seria sacrificado e consumido pelos Tupinambás.

Hoje em dia o significado não se distancia muito. Felizmente, mesmo depois de tantas guerras e genocídios desde o século XVI, a região do litoral sul da Bahia, mais precisamente em Olivença, abriga os Tupinambás de hoje,  e é em memória e honra daqueles antigos guerreiros que eles cantam. Em 1559, segundo o então Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, seis quilômetros de corpos Tupinambás enfileirados no litoral foram contabilizados. Esse episódio ficou conhecido como a “Batalha dos Nadadores”. Hoje, todo final do mês de setembro, os descendentes daqueles que sobreviveram marcham os mesmos seis quilômetros entoando cantos em honra àqueles que se foram de forma tão brutal. A memória desse episódio permanece ainda bem viva.  

Na década de 1930, caboclo Marcelino se torna mártir por lutar contra os fazendeiros de cacau que queriam, mais uma vez, tomar a força e pela violência as últimas terras Tupinambás. Ele foi preso acusado de comunismo e nunca mais foi visto. Eu sinto muito contar verdades tão doídas, mas é importante que saiba que essas sociedades tão antigas ainda são caçadas e tratadas como invasoras. Felizmente, na vila de Olivença ainda é celebrado a cerimônia do Porancy, onde a memória Tupinambá pode permanecer viva e ser celebrada, onde os pequenos ficam conhecendo suas origens e os mais velhos podem contar e cantar histórias. Também celebram a Festa do Divino Espírito Santo, realizada no final do mês de maio, e a Festa da Puxada do Mastro ou Festa de São Sebastião, que acontece todo o segundo final de semana de janeiro. Essas celebrações católicas têm origem ainda no século XVII, junto da fundação da Vila de Olivença.

Bom, eu te trouxe muita coisa para pensar. Espero que essa carta possa te instigar a procurar mais sobre essa grande nação Tupinambá. E olha que tem muita, mas muita coisa mesmo.

Canide ioune - canto tupinambá anotado por Jean de Léry (1557)

Canide ioune - canto tupinambá anotado por Jean de Léry (1557)

REFERÊNCIAS

 

METRÁUX, A., prefácio, tradução e notas de PINTO, Estevão. A Religião dos Tupinambás e suas Relações com as demais Tribus Tupi- Guaranis. Série 5°, Vol. 267, São Paulo.  Brasiliana, Biblioteca Pedagógica Brasileira, Companhia Editora Nacional, 1950. https://bdor.sibi.ufrj.br/bitstream/doc/40/1/267%20PDF%20-%20OCR%20-%20RED.pdf

NHENETY, José Nunes; PANKARARU, Atiã ; PANKARARU, Suzana;  XukuruKariri, Tânia; PANKARARU, Elisa; PANKARARU, Maria; TUMBALALÁ, Cícero; TUMBALALÁ, Cecília; PATAXÓ HÃHÃHÃE, Paulo; PATAXÓ HÃHÃHÃE, Wilman ; TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA, Jamopoty; TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA, Acauã; DAMÁSIO,  Pedrisa; TUPINAMBÁ DE OLIVENÇA, Rômulo. Cantando as Culturas Indígenas, da coleção Índios na Visão dos Índios. ONG Thydêwá. 2013. http://www.thydewa.org/wp-content/uploads/2013/12/CANTANDO-web-2013.pdf

VIEGAS, S. de M. Tupinambá de Olivença. https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Tupinamb%C3%A1_de_Oliven%C3%A7a

Instituto Socioambiental. Terra Indígena Tupinambá de Olivença. https://terrasindigenas.org.br/pt-br/terras-indigenas/3993#noticias

SEVERIANO, R. Música indígena e valores culturais guerreiros: aspectos musicais da sociedade Tupinambá no Brasil colonial. XXV Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música Vitória. 2015. https://anppom.org.br/anais/anaiscongresso_anppom_2015/3506/public/3506-11651-1-PB.pdf

Coluna da Filhas da Terra. A Força dos Encantados Na Caminhada Tupinambá. 05/10/2001

https://catarinas.info/colunas/a-forca-dos-encantados-na-caminhada-tupinamba/

SOUZA, J. M. A. O futuro e os caminhos encantados: Cachoeira reencontra os Tupinambá. In: CESAR, A., MARQUES, A. R., PIMENTA, F., COSTA, L., eds. Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc [online]. Salvador: EDUFBA, 2020. https://doi.org/10.7476/9786556301921.0008. https://books.scielo.org/id/f9jsv/pdf/cesar-9786556301921-10.pdf

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