top of page
8769031894_2479dd3334_b.jpg

Tuxá, Nação Proká, Memórias Cantadas em Silêncio

POR RYAN IRAÇABAL

  Clique nas palavras destacadas ao longo do texto para acessar conteúdo extra  

Tuxá, Nação Proká, Memórias Cantadas em Silêncio - por Ryan Iraçabal

“A história da linguagem não remonta até as origens, pois a linguagem é condição da história... a origem da linguagem não se confunde com a origem das línguas.

As mais antigas línguas conhecidas, as línguas ‘mãe’ nada tem de primitivo”

(BENJAMIN, W. Problemas da Sociologia da Linguagem. 1992. Lisboa, Relógio D’Água, 1935)

O Povo Tuxá, sempre esteve intrinsecamente envolvido com as águas do Rio São Francisco e toda sua margem. Registros de muito tempo atrás sugerem uma “Tradição Nordeste”, tese da antropóloga Niéde Guidon, tendo a área do Parque Nacional Serra da Capivara no Piauí como centro difusor, com uma antiguidade confirmada de 12.000 anos até aproximados 6.000 A.C., com produções artísticas que se difundiram por todos os povos que ali existiram.

O canto dos Tuxá reforça essa ideia histórica do seu passado já que, como Schaffer  diz: “A música forma o melhor registro permanente de sons do passado. Assim, ela será útil como um guia para o estudo das modificações nos hábitos e nas percepções auditivas.”

Em diversos sítios arqueológicos espalhados pela região, encontramos evidências de como a música era parte fundamental de socialização e transmissão de conhecimentos e valores, como nas imagens de festivais/rituais  retratados em painéis pictóricos, em flautas pré-históricas ou rituais de sepultamento envolvendo instrumentos musicais.

Atualmente restam poucos assentamentos, o principal deles é no município de Rodelas, Bahia. Até pouco tempo atrás eles ocupavam também a Ilha da Viúva, no Rio São Francisco, que era o ponto central do povo. Infelizmente com a construção da Hidrelétrica de Itaparica, em 1988, a ilha foi inundada e os Tuxá perderam, mais uma vez, suas terras. Os mais velhos da aldeiam sempre reforçam a memória de que na Ilha da Viúva os rituais eram mais vivos, “num pensamento e numa pisada só, de estremecer as matas”.

Seu ponto cultural e social sempre foi o Rio São Francisco. As memórias dos mais antigos narram a vivência cotidiana fortemente ligada ao rio. Isso inclui música e arte, ritualística, vida social e comercial e interação com todos os outros povos do Rio São Francisco que não existem mais. Indo de encontro com o trecho citado no início do texto, os sons da natureza, o fluxo do rio, a música das cachoeiras e cascatas, eram inspiração para cada um que do Velho Chico bebia. A linguagem em si parte de um rio que outrora se movimentava e movimentou vários povos ricos em cultura e tradição.

Hoje o “Toré” e o “Ritual dos Ocultos”, são herança viva dos tesouros que o povo Tuxá conseguiu guardar. No “Ritual dos Ocultos”, ou “Particular”, não é permitida entrada de pessoas não-indígenas, crianças, pessoas não-indígenas casadas com indígenas e indígenas solteiros. Isso resguarda suas tradições e reforça a importância cultural de sua ritualística. Ao participarem do “Ritual dos Ocultos”, eles ingerem a bebida de jurema e a “cura”, ou “currumati”, além do tabaco . O único instrumento musical aqui é a maracá usada apenas pelo pajé para dar compasso às cantorias durante todo o ritual. Esses dois rituais, “Toré” e “Ritual dos Ocultos”, são considerados os “troncos” do povo Tuxá, onde homens e mulheres indígenas adultos e casados chamam pelos ancestrais, caboclos, guias e encantados em trabalhos espirituais para predizerem acontecimentos importantes na aldeia e realizarem trabalhos espirituais e de cura.

Já o “Toré” (É possível que a palavra Toré derive de “torá’, do dialeto Kipea do tronco linguístico Kiriri, que significaria “cortezia com o pé”.) possui um caráter mais informal e com o principal objetivo de socialização entre os habitantes da aldeia. As cerimônias do “Toré” ainda são restritas apenas aos indígenas Tuxá, podendo abrir para indígenas de outras etnias e permitindo todas as faixas etárias. Há também a possibilidade do “Toré” ser aberto para não-indígenas dependendo do tipo de relação que ele tenha com a aldeia. O “Toré” é usado para comemorações, interações sociais, chegadas ou partidas da aldeia, usado também como uma espécie de “pagamento de promessas” por graças alcançadas. Também fazem uso da jurema, porém mais diluída, do cachimbo e permite-se bebidas alcoólicas. Antes, na Ilha da Viúva, todos os dois rituais eram praticados com mais frequência intercalando-se. Antes de iniciar o “Toré”, indiscutivelmente, entoa-se a seguinte frase: “Tribo Tuxá, nação procá, bragadá, de arco e flecha, maracá, malakutinga tuá.”

O idioma Tuxá é uma língua não catalogada, não sabemos muito ainda sobre seu tronco linguístico, mas a teoria mais aceita é de que derivaria do tronco Jê, que é o tronco que abrange a maioria dos idiomas nativos do nordeste brasileiro. Mas há também a possibilidade de os Tuxá terem sido um povo trilíngue, falando Kariri, Jê e Tupi.

Torê do povo Tuxí  - via @maisfilmess

Torê do povo Tuxí - via @maisfilmess

logos uerj - projeto mbaj

MBAJ - Histórias Musicais de Povos Originários Brasileiros©2022

Desenvolvido por Tatiana Agra

bottom of page