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Sopros da floresta: a manifestação musical no cotidiano Waiãpi

POR FABIANA PINHEIRO

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Sopros da floresta: a manifestação musical no cotidiano Waiãpi - por Fabiana Pinheiro

Há mais de dois séculos, um povo que vive em terras que atravessam fronteiras entre o Amapá e a Guiana Francesa canta e dança para os espíritos da floresta. Seus habitantes fabricam e tocam instrumentos de sopro em festas e têm a música como parte integrada aos elementos de sua cultura. Autodenominando-se waiãpi - palavra que contempla também o nome de sua língua, pertencente à família tupi-guarani -, ocupam a região dos rios Jari, Oiapoque e Araguari. O último censo, realizado em 2014 pelo Sistema de Informação de Atenção à Saúde Indígena (Siasi/Sesai, 2014), estimou uma população de 1221 pessoas da etnia habitando o Brasil.  Apesar de pertencerem à mesma etnia, os waiãpi do Amapá e os da Guiana Francesa apresentam diversidades culturais entre si, não sendo possível a generalização e a tomada de suas características como absolutas. Ainda assim, consideram-se “parentes” e compartilham da música como um componente de organização, comunicação, e estruturação de sua sociedade e seus costumes.

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Entre 1977 e 1993, o doutor em etnomusicologia Jean-Michel Beaudet realizou um trabalho de campo que durou cerca de 15 meses a respeito da música dos waiãpi, no qual descreveu algumas das dinâmicas em que se incluem as músicas, analisando as estruturas sociais nelas envolvidas. Assim, observa diferenciações entre músicas instrumentais e cantadas, individuais e coletivas, dançadas e não dançadas, para festas ou para o núcleo familiar. Atenta-se principalmente ao tule, uma palavra waiãpi que contempla significados variados. Entre eles, é como são chamados os clarinetes grandes feitos de bambu, muito utilizado na música waiãpi, que possui uma expressiva presença de instrumentos de sopro. A palavra tule se refere também ao que o autor chama de “orquestras” que são formadas pelos clarinetes e seus repertórios, além de poder significar como são chamados os encontros coletivos musicais.

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Em outras pesquisas, descobri que esses encontros ocorrem com certa frequência, pois os waiãpi são muito festeiros, possuindo cerca de 60 tipos de celebração diferentes. Existem diversas motivações e temas que celebram, como a festa do milho e a festa do mel, além de festejarem para agradar e agradecer o deus Ianejar. Nessas festas, é possível perceber a diferença do papel do homem e da mulher na música coletiva e na função social: apenas homens tocam os instrumentos, diferente do canto, que é aberto para participação de homens e mulheres. Por outro lado, o mito de criação do tule narra que as mulheres concederam tal repertório aos homens, reconhecendo que possuem um papel essencial para a existência da prática. A música geralmente é acompanhada pela dança, realizada por homens e mulheres, e pelo caxiri, bebida fermentada à base de mandioca, feita e servida pelas mulheres. Como aponta o cacique Japarupi Waiãpi, o caxiri ajuda a inibir a vergonha de dançar e cantar, além de os deixar mais alegres para festejar.

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Carregados dessa alegria dos encontros coletivos, os waiãpi se dedicam a homenagear os espíritos da floresta através da música, cantando para o espírito do rio, para os pássaros, serpentes, e demais seres que os rodeiam. Existem também canções de ninar e de amor, como conta Aikyry Waiãpi ao tocar uma música de amor da tradição waiãpi na flauta, servindo a um propósito de dedicar a canção, segundo ele, a uma esposa ou namorada e, assim, fazê-la pensar e gostar de seu parceiro. No entanto, nem sempre suas músicas têm tom de celebração e romantismo: além de cantarem e tocarem lamentações fúnebres que carregam um caráter melancólico, algumas músicas se traduzem em canções de guerra - executados, por vezes, por músicas estritamente vocais - ao se manifestarem defendendo-se de alguma ameaça, e outras são cantadas em tempos de crise para o deus Ianejar. Das mais alegres e românticas até as de temáticas melancólicas e fúnebres, as músicas waiãpi são repletas de afeto. Fiquei tocada ao ouvir uma canção reproduzida no podcast “Programa de Índio”, do site Ikore, feita em homenagem a um pássaro que se tornou raridade em suas terras devido à atividade mineradora que está envenenando o rio e espantando o animal, resultado do projeto de desenvolvimento da Amazônia implementado nos últimos anos e fomentado pelo governo, perturbando a paz dos waiãpi.

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Independente da motivação e do tema, os instrumentos de sopro predominam em suas músicas, existindo uma variedade de tamanhos e diferenciações em suas formas de funcionar e tocar. Na cultura waiãpi, o sopro da flauta desempenha uma linguagem que é possível de ser ouvida, explicada e traduzida. Beaudet estabelece uma relação entre esses instrumentos e os sopros dos costumes do xamanismo, que são audíveis e visíveis pela emissão da fumaça do tabaco, muitas vezes atrelado a um processo de cura. Há até mesmo o verbo waiãpi pú para designar “sopro sonoro”, denotando a relevância do sopro para essa sociedade. Dessa forma, propõe que haveria uma ligação entre os costumes do xamanismo e as práticas musicais, conectadas, entre outros elementos, pela convivência e familiaridade com o sopro.

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Por fim, Beaudet aponta que os waiãpi entendem a música como uma essência preexistente, presente e integrada à natureza. Além disso, suas músicas fazem muitas referências ao mundo natural e suas crenças, usadas para estabelecer uma comunicação com os espíritos da floresta e entre si. Possuem também uma relevante função social, que os reúnem em celebrações e momentos de tensão. Atualmente, os waiãpi voltaram a ser ameaçados pela exploração de mineradoras e atividades dos garimpeiros, o que nos anos 1970 levou o sarampo e a malária para a população, vitimando cerca de cem pessoas. Assim, estão em constante luta pela manutenção e preservação de suas terras, e sua música traduz-se em instrumento de resistência cultural, seja em canções de guerra, em homenagem aos seres ameaçados ou apelos de paz.

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Música de flauta nativa Indígena  Wajãpi

Música de flauta nativa Indígena Wajãpi

REFERÊNCIAS

 

BASTOS, Rafael José de Menezes; PIEDADE, Acácio Tadeu de Camargo. Sopros da Amazônia: sobre as músicas das sociedades tupi-guarani. Mana, v. 5, p. 125-143, 1999.

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GALLOIS, Dominique Tilkin. Expressão gráfica e oralidade entre os Wajãpi do Amapá, Brasil: relatório. Ministério da Justiça, Fundação Nacional do Indio, 2002.

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GALLOIS, Dominique Tilkin. Terra Indígena Wajãpi: da demarcação às experiências de gestão territorial. 2011.

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GALLOIS, Dominique Tilkin. Povos Indígenas no Brasil, 1997. Wajãpi. Disponível em:

<https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Waj%C3%A3pi> Acesso em: 28 de out. de 2022.

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ODILLA, Fernanda. Quem são os wajãpi, guardiões de terra cobiçada por garimpeiros ilegais e mineradoras. BBC News Brasil, 2019. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49152403>. Acesso em: 28 de out. de 2022.

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Música Wayãpi. Programa de Índio. São Paulo: Rádio Universitária de São Paulo. 14 fev. 1988. Programa de rádio.

Disponível em: <http://ikore.com.br/programa/musicas-wayapy/>. Acesso em: 28 de out. de 2022.

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Nattiez, Jean-Jacques. (2020). Etnomusicologia. Revista Música, 20(2), 417-434.

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