
A flauta sagrada, os costumes e a cultura dos Waujá habitantes do
Alto Xingu
POR ROH SOUZA
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A partir da publicação “Análise musical e contexto na música indígena: a poética das flautas” (2011) conheceremos através da percepção do professor de Composição e Análise Musical, Acácio Tadeu de Camargo Piedade, um pouco sobre a cultura, hábitos e costumes dos povos habitantes do Alto Xingu, mais precisamente do povo Waujá. Antes de adentrar mais profundamente na cultura musical do povo Waujá, o professor aponta questões sobre como a música dos povos originários é vista de forma pejorativa pelo mundo ocidental devido a sua repetição melódica, falta de sofisticação e pouca elaboração. Porém, para além da crítica, o professor ressalta que observar a música criada pelas etnias originárias requer um olhar mais generoso e equilibrado sobre as construções estéticas, processos históricos e raízes culturais, para então compreender toda a estrutura que constrói o repertório musical de um povo.
Pois bem, até aqui temos uma forma de percepção do ocidente sobre a música indígena, mas como é a relação dos Waujá (ou Waurá) com a música? A princípio, para o povo desta etnia a música está presente em tudo o que os cerca. Através do canto e de instrumentos tradicionais produzidos a partir da cabaça e do bambu, constroem tambores (tôka), chocalhos (wãu) e flautas, entoando cantos específicos para cada rito. Dentre os instrumentos, há um evento específico que tem como protagonista a flauta kawoká, que faz parte do “Complexo das Flautas Sagradas”. A ritualística que envolve a flauta pauta todo um universo que abrange desde histórias da criação dos Waujá até sua complexa estruturação social e política. As flautas em questão, por serem sagradas, são alocadas em uma edificação que fica localizada no centro da aldeia, chamada de “Casa das Flautas" (kuwakuho) ou “Casa dos Homens”, pois somente os homens da aldeia podem acessar tal local.
Quando as flautas são utilizadas tanto na Casa dos Homens ou no pátio da aldeia, as mulheres não podem estar presente e tão pouco visualizar a flauta sagrada, tendo que fechar portas e janelas, e caso contrário, há uma penalidade para a mulher que estiver observando. As mulheres podem ouvir as músicas tocadas nas flautas como forma participação da cultura, porém segundo a história mitológica dos waujá, as flautas sagradas um dia pertenceram às mulheres, mas os homens tomaram delas. Além do festival das “Flautas Sagradas” que é celebrado apenas pelos homens, tem também o ritual feminino yamurikumã, no qual só mulheres cantam, dançam e roubam objetos dos homens, tais como cocares de penas, lanças e flechas, e fazem brincadeiras e cantigas (não relatadas no texto original) que provocam os homens.
Dentro da mística waujá há seres mágicos que regem a saúde, a prosperidade alimentar e a proteção dos moradores da aldeia. Os apapaatai são uma espécie de reconfiguração espiritual dos ierupoho, que antes habitavam a terra visível porém foram exilados após a libertação dos waujá, que viviam presos na escuridão de um cupinzeiro. Tendo Kamo (sol) libertado os waujá e trazendo a luz para a terra, os ierupoho tiveram que esconder seus rostos atrás de máscaras e assim nasceram os apapaatai. Dentre os vários apapaatai, há um que é temido pelo povo waujá, e por ser poderoso e perigoso, é o único que em vez de se esconder atrás das máscaras criou as flautas e nelas se abrigou. Assim, a música tocada por um conjunto de flautas é a sua manifestação no mundo dos homens.
Os regentes espirituais do povo waujá estão sob uma dualidade no qual ao mesmo tempo que abençoam também trazem doenças aos membros da aldeia (há uma relação ética e estética que visa a saúde física e espiritual). Através do pajé iakapá é realizada uma pajelança, na qual se descobre qual tipo de apapaatai está provocando o desequilíbrio no corpo gerando algum tipo de doença. Para que haja cura, uma defumação é feita com objetivo de quebrar o mal lançado. Após tal procedimento a cura estética é realizada através de rituais musicais e de máscaras. Dependendo do tipo de apapaatai, é contratado um mestre de flautas para construir um conjunto de flautas para o ex-enfermo, e logo estando prontas, é realizada uma performance ritualística para entrega das flautas na qual o apapaatai estará presente. A música tocada deverá ser do agrado do espírito para que o mesmo tenha sua braveza amenizada e que em seguida seja domesticado.
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