
Yudjá Karia:
Os Donos do Rio Xingu e a Documentação e Preservação de
sua Cultura
POR GUILHERME VAZ
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Contarei um pouco sobre os Yudjá a partir de um texto onde os próprios indivíduos dessa sociedade relatam. Os Yudjá são um povo originário que residem no que hoje é conhecido como o estado do Mato Grosso, mas eles moram lá desde antes do conceito de países e fronteiras ter sido introduzido na America Latina. Hoje estão divididos em duas partes, uma dentro do Parque Indígena do Xingú, no alto curso desse mesmo rio, e outra fora dessa demarcação, no médio Xingú, na já antiga Terra Indígena Paquiçamba. As histórias e informações aqui retratadas foram retiradas de relatos sobre o grupo que habita o Parque Indígena do Xingú. Localizados antigamente no baixo Xingú, eram numerosos em 1842, com uma população somada de 2000 pessoas, porém resistiram apenas 52 indivíduos em 1916 devido a enorme expansão de seringueiros, mas os Yudjá fugiram rio acima e se estabeleceram em um local próximo da cachoeira Von Martius, onde conseguiram se manter vivos, diferente de outros povos vizinhos e culturalmente similares aos Yudjá, que foram completamente dizimados com a invasão seringalista. No Censo de 2001, somavam 270 pessoas e era a tribo mais importante do Xingú, de acordo com uma carta encontrada do etnólogo alemão Curt Nimuendajú, um etnólogo alemão, naturalizado brasileiro nascido em 1883 e que viveu até 1945. Seu sobrenome “Nimuendajú” foi dado pelos Apapokuva-Guarani e significa “fazer moradia”.
Os Yudjá são navegadores tradicionais da bacia do Xingu e se denominam os donos deste rio, e dessa forma pode se traduzir o significado do nome deles, “donos do rio”. Eles falam uma linguagem do tronco tupi cujo o nome é Juruna e engloba outras línguas já extintas de outras sociedades “similares”. Juruna é uma palavra de origem estrangeira e aparenta significar “boca preta” em Língua Geral. Culturalmente, se aproximam de povos que falam línguas da família tupi-guarani, com as línguas jurunas sendo consideradas pelo etnólogo Nimuendajú como “um tupi impuro” com influências de línguas Arawak, Caribe e vocábulos da Língua Geral. Suas atividades essenciais consistem em canoagem, produção de cauim, caça, pesca, rituais e festas que envolvem música, como é o caso da Pïreu Xĩxĩ Abïaha, um festival onde são confeccionadas clarinetas, trombetas e principalmente flautas feitas a partir de uma taquara conhecida como tĩtĩ, que hoje se encontra apenas num território onde os Yudjá moravam entre o final do século XIX e inicio do século XX. Por conta disso, deixaram de manufaturar as flautas até 2001, quando foi criada a Associação Yarikayu do povo Yudjá e junto com a criação da associação começaram um projeto de revitalização e preservação da cultura Yudjá. Com financiamento do Museu da Basiléia na Suíça, foi feita uma excursão para adquirir mais desta taquara e foi produzida uma coleção completa de instrumentos Yudjá que foram entregues ao museu em 2006 numa excursão dos representantes da associação à Suíça.
A tradição musical desse povo é muito rica, e existem músicas como a Apï Ayã Txuxitxuxi, uma cantiga de ninar onde a crença dos Juruna os impede de cantá-la após as cinco da tarde pois isso poderia afetar as crianças que entrariam num sono letárgico, podendo não acordar mais.
No texto organizado pela associação são contadas duas histórias dos Yudjá além de abordar a parceria com o museu suíço que ajudou o projeto com financiamento, juntamente com pequenos textos introdutórios sobre os instrumentos musicais. As histórias foram contadas pelas crianças Yudjá e transcritas e traduzidas pelos professores da Escola Indígena Central Kamadu.
No texto, é contado como há muito tempo atrás, a maior parte dos homens da aldeia saíram para caçar e se ausentaram da aldeia por quase um mês inteiro. A aldeia por conta disso ficou triste e silenciosa, e nessa ausência apareceram pessoas com flautas na aldeia, saídas de dentro do rio, junto com eles alguns “espíritos do mato” como o calango, então seus habitantes estranharam aquele grupo, mas como eles eram parecidos com os Yudjá, não tiveram medo. O chefe dos desconhecidos lhes disse que vieram para dançar e fazer festa, mais especificamente a festa da flauta (Pïreu Xĩxĩ Abïaha). O povo desconfiou de início mas quando perceberam do que se tratava juntaram-se a eles. Já acostumados com os visitantes, perderam o medo e passaram o mês festejando com eles, que terminaram de mostrar todas as músicas que sabiam. Cortavam um tipo de flauta diferente para cada música, todas do mesmo material, a taquara tĩtĩ, sendo as conhecidas como pïreu xĩxĩ as últimas a serem feitas e tocadas, o término da festa se deu a partir desses instrumentos de sopro. O “idoso chefe” da aldeia os acompanhava durante o processo, aprendeu todas as músicas, e tocava com eles até amanhecer.
Na realidade esses flautistas eram espíritos da água conhecidos como Kanã, portanto pressentiram o retorno dos homens para a aldeia. No tempo que passaram junto aos outros, tinham se apegado às mulheres e tinham planos de levá-las com eles de volta para o rio. Os homens voltavam em suas canoas enquanto os espíritos guiavam as mulheres em fila para a borda do rio com uma música de suas flautas que dizia “tenho dó da minha dama”. Algumas notaram algo errado e voltaram para a aldeia, se distanciando dos visitantes. Quando perceberam a falta de algumas delas, agarraram as remanescentes pelo braço e retornaram para o fundo do rio, devorando as mulheres enganadas. Um clima de luto e tristeza tomou conta da aldeia durante a recepção dos homens, que viram os restos das mulheres na beira do rio e notaram as flautas. As mulheres contaram o que aconteceu e como foram enganadas com danças e músicas e como eles pareciam ser Yudjás também.
O tempo passou e o chefe da aldeia começou a ensinar os jovens tudo o que aprendeu com os espíritos, a manufatura das flautas, as músicas, as danças e nomeou as flautas uma por uma, mostrando para o que serve cada uma, incluindo a pïreu xĩxĩ, que tem um efeito na natalidade do povo e faz com que nasçam muitas crianças. Essa é a história de como os Yudjá aprenderam a tocar flauta e como os Kããnã cederam suas flautas a eles. Esse conto tradicional deu origem ao festival por eles praticado onde são confeccionados seus instrumentos musicais.
JUSTIFICATIVA
O próprio texto “Yudjá Karia” vem com diversos desenhos das crianças, registros fotográficos e, na versão física original, um cd onde estão gravadas as festas apresentadas. Contudo, é pedido no texto que esses vídeos não sejam divulgados sem autorização prévia da própria Associação Yarikayu, portanto os mesmos não constam nesse site - mas podem ser acessados (com exceção dos registros fonográficos) em:
https://acervo.socioambiental.org/sites/default/files/publications/jnd00021.pdf
REFERÊNCIAS
https://pib.socioambiental.org/pt/Povo:Yudj%C3%A1/Juruna. Acesso em 06/12/2022.
https://acervo.socioambiental.org/acervo/publicacoes-isa/yudja-karia-registro-da-cultura-musical-do-povo-indigena-yudja. Acesso em 06/12/2022.
https://www.pick-upau.org.br/panorama/2005/2005.07.15/povo_yudja_recebe_apoio.htm. Acesso em 06/12/2022.
https://xingumais.org.br/parceiro/yarikayu?id=472. Acesso em 06/12/2022.
https://www.cantosdafloresta.com.br/audios/api-aya-txuxitxuxi/. Acesso em 06/12/2022.
FOTO DE CAPA
Rio Xingu. Site ((o))eco. https://oeco.org.br/noticias/29030-xingu-estudo-demonstra-importancia-de-areas-protegidas-para-preservar-ciclo-da-agua/. Acesso em 31/01/2023.