Sebastiana e Rufino, lideranças espirituais Guarani Kaiowá, foram assassinadas por defenderem seu território
- MBAJ

- 6 de out. de 2023
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Em 18 de setembro um casal de rezadores Guarani-Kaiowá foi brutalmente assassinado no Mato Grosso do Sul. Sebastiana Galton e Rufino Velasquez, duas importantes figuras religiosas e políticas da região onde viviam, tiveram sua casa envolta por um incêndio criminoso iniciado na madrugada do próprio dia 18.
Eles viviam na Terra Indígena Guasuti, na divisa de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, na cidade de Aral Moreira. Sebastiana e Rufino eram respectivamente nhandesy e nhanderu, que pode ser traduzido como “nossa mãe” e “nosso pai” e também como rezadores.
São vistos como referências dentro de sua comunidade e não são os únicos, existem outros, assim como a nhandesy Alda Silva, que também morreu em um incêndio em 2019, onde as circunstâncias ainda são investigadas.Esse não é um caso isolado, como não costuma ser quando o assunto é a expropriação indevida de terras indígenas, e apesar de investigações oficiais da Polícia Civil apontarem como um caso isolado e descartarem ser um crime de ódio, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) diz que a “comunidade discorda da linha policial” como relata o jornal Brasil de Fato.
Já a Aty Guasu (Grande Assembleia Guarani-Kaiowá) já declarou que “todas as nhandesy e lideranças religiosas denunciam o arrendamento de terra indígena e por isso sofrem ameaças de morte” .
Vale mencionar o caso de Estela Vera, também nhandesy e ativista, ocorrido em dezembro de 2022, assassinada a tiros por dois homens no local que defendia contra o arrendamento e seguindo este mesmo padrão violento também se encontram relatos mais recentes da comunidade Guarani-Kaiowá da cidade de Dourados (MS) denunciando tiros, pertences roubados, casas saqueadas e incendiadas por parte dos pistoleiros da região.
Os povos originários do Brasil, assim como tantos outros grupos marginalizados mundo afora, vivem ainda em estado de guerra, sem direito a descansar de toda a violência diária com a qual convivem que já foi de certa forma banalizada de tal modo que apesar de casos assim nos comoverem e chocar, ainda assim não nos mobilizamos o suficiente, ao ponto de parar o país para demandar respostas e cobrar autoridades por medidas cabíveis, sendo uma delas maior proteção da integridade e dos territórios indígenas. Apesar de termos autoridades como a FUNAI lidando com esses problemas, talvez com mais cobrança e apoio popular extenso eles ganhem mais tração e as coisas possam se resolver de formas mais justas, idealmente conseguindo evitar que casos assim se repitam.
Como exemplo disso temos o caso de Bruno Pereira e Dom Phillips, dois ativistas da causa, nenhum dos dois eram indígenas, um deles ex funcionário da FUNAI, que na data do crime era indigenista licenciado, e o outro um jornalista inglês que foram também brutalmente assassinados, mas nesse caso, ainda mais por se tratar de um jornalista estrangeiro, a mídia deu um destaque significativo, e assim, com uma ampla divulgação, foram tomadas medidas cabíveis de proteção extensa da área onde atuavam, o Vale do Javari, que com a proporção tomada pelo caso fez com que a OEA (Organização dos Estados Americanos) buscasse um acordo com o governo brasileiro para a proteção deste local. Já os mandantes e executores do crime já foram identificados e estão na condição de réus.
A mídia tradicional muitas vezes tem interesses que vão de encontro com as demandas das causas indígenas, portanto notícias importantes como estas costumam ser veiculadas de forma tendenciosa e outras são simplesmente deixadas de lado ou se tornam apenas uma nota de rodapé, o que contribui para que alguns segmentos da sociedade se encontrem isolados sem acesso a essas informações. Mas hoje em dia podemos acompanhar indígenas que dedicam suas redes sociais à causa e manutenção do que lhes é mais do que devido.
É importante acompanhá-los, entender seu ponto de vista e suas reivindicações para que possamos questionar as notícias que chegam até nós, se estão de fato sendo imparciais ou se fazem parte da narrativa que se opõe aos direitos dos indígenas disfarçadas em uma falsa ideia de progresso.













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